Desde O Grito, célebre conjunto de obras do pintor norueguês Edvard Munch, iniciado em 1893 e marcado pela expressão da angústia, do pânico e do desespero, o grito se apresenta como um significante que convoca um passeio por múltiplos sentidos. Curiosamente, a figura andrógina retratada pelo artista remete ao humano sem se prender ao binarismo de gênero.
Gritar é expressar sentimentos, dores e prazeres. Dependendo do contexto, o grito pode ter ou não pertinência na comunicação e no desenvolvimento humano. O grito de dor ou de pedido de socorro é claro e endereçado: trata-se de uma solicitação de amparo. Ao nascermos, ele surge junto ao choro, marca a presença viva e o ato vital de respirar, convocando a função materna.
Gritamos quase automaticamente quando algo é muito doloroso, seja física ou emocionalmente. A negação dessa expressão pode contribuir para lutos mal elaborados, adoecimentos psicossomáticos e dificuldades de protestar contra aquilo que nos faz sofrer.
Temos também gritos históricos ligados à conquista de liberdades, ainda que relativas, como o do Ipiranga. O brado “Diretas Já” foi um marco da união em defesa da redemocratização do país. Em defesa da democracia brasileira, ecoaram ainda palavras de ordem como “Sem anistia”, dirigidas aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 e na depredação das sedes dos Três Poderes, em Brasília.
Como militante LGBTQIA+, é impossível não reconhecer o grito contra a homofobia bolsonarista que Jean Wyllys bradou durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff. A cusparada em Jair Bolsonaro foi uma manifestação de indignação diante da homenagem prestada ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. Confesso que me inclino a não condená-la, pois nem mesmo a Comissão de Ética suspendeu Wyllys, limitando-se a uma advertência. Neste ano, vamos gritar nas ruas e, com silêncio e temperança, depositar nas urnas nosso voto pela vida e pela democracia.
Sob a perspectiva da neurociência, gritos frequentes em contextos de violência podem afetar o funcionamento do córtex pré-frontal, provocar medo e prejudicar cognitivamente a aprendizagem da criança. O grito também pode atingir a autoestima em qualquer fase do desenvolvimento. Em situações abusivas, pode contrariar a proteção assegurada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e, nas relações domésticas, caracterizar violência psicológica nos termos da Lei Maria da Penha. A exceção seria o grito eventual e protetivo diante de um perigo — gesto que, no budismo, pode ser associado à compaixão.
Minha inesquecível mestra, a psicanalista Martha Brizio, dizia que gritamos para sermos ouvidos. Sim, essa é uma das funções do grito: o apelo. Fazendo uma torção nessa ideia, pode ocorrer, no plano imaginário, de acreditarmos que não somos ouvidos por alguém que ocupa uma posição ligada às representações de nossa história subjetiva.
Do ponto de vista psicanalítico, o conceito de pulsão invocante é fundamental para a constituição do sujeito psíquico. A voz materna — ou a voz de quem ocupa essa função — precisa oferecer acolhimento e amor, educando sem violência e sem berros.
Escrevo sobre isso porque, até hoje, fico paralisado diante de berros acusatórios. Essa inibição seguramente não decorre de eu me considerar certo em tudo, mas de apostar na palavra firme e elegante, capaz de sustentar o contraditório sem julgamentos sumários — para os quais, inclusive, há limites jurídicos. Nas redes sociais, os gritos aparecem em CAIXA ALTA.
Por outro lado, quem parte para uma queixa aos berros provavelmente nos coloca na posição de alguém que, em sua história, o tratou da mesma maneira. Esse comportamento não é pertinente, sobretudo entre pares de luta. Há nele uma arrogância e uma deselegância que nada constroem, ficando aquém da palavra justa, clara e fundamentada.
Quem comanda agremiações, empresas ou movimentos poderia se perguntar, em análise, sobre o lugar singular de seus próprios gritos. Talvez, assim, entrasse em contato com suas dores recalcadas, conquistando uma relação mais lúcida com a linguagem e construindo melhores laços sociais.
Teus melhores gritos podem ser os do torcedor entusiasmado, do ativismo democrático, do prazer e do orgasmo. Sussurros também podem ser gritos agressivos dissimulados, mas podem igualmente ser excitantes e carregados de sedução.
Se os teus gritos vierem da mágoa, do autoritarismo, do racismo ou da homofobia, venha gritar em análise. Eu vou te escutar e facilitar o caminho para que a palavra verdadeira e sensata ressignifique teus berros. Afinal, como dizia Winnicott: “Para o amor de transferência acontecer, tem que advir o ódio”.





