Por conta do Dia do Amigo, celebrado em 20 de julho, peguei-me refletindo sobre o lugar tão importante que os amigos ocupam em nosso desenvolvimento, em nossa socialização e em nossa saúde mental, considerando a amizade em seus diferentes níveis e desafios.
Em todas as etapas da vida, o papel dos pares é fundamental para o desenvolvimento de nossas inteligências emocional e cognitiva. Uma criança com dificuldade de fazer amigos precisa de apoio familiar e psicológico, pois uma vida saudável requer interações e identificações que vão além dos vínculos parentais, compondo um somatório que constitui o Eu, na perspectiva da psicanálise lacaniana.
Os companheiros da infância são muito importantes nas interações lúdicas, favorecendo tanto as emoções quanto a cognição. Sempre tive poucos amigos homens, sendo minha dificuldade de jogar futebol um dos motivos, em um país que tradicionalmente considera esse esporte como tipicamente masculino, embora essa realidade venha mudando.
A adolescência é o período de reeditar o Complexo de Édipo, buscando também modelos e amizades fora do ambiente familiar. Tive a sorte de integrar uma turma linda em todos os sentidos na primeira fase da minha vida, em minha terra, São Borja. Depois, em Porto Alegre, encontrei parcerias que me aproximaram da militância, do marxismo, do trotskismo e da luta contra a ditadura, experiências que nunca estiveram desconectadas da liberdade sexual, dos desejos e das festas.
Às vezes, banalizamos o adjetivo “amigo”, aplicando-o a parcerias, simpatias, companhias ou colegas. Com o passar do tempo, os verdadeiros amigos são aqueles que permaneceram e com quem construímos uma história. Ao mesmo tempo, glamourizar a amizade verdadeira é uma tendência romântica à qual podemos sucumbir, pois “tretas”, mágoas e decepções também fazem parte das relações. Cada um definirá o que considera suportável e perdoável.
Pelo viés da psicanálise e de minha análise pessoal, fui percebendo que ressignificar conflitos — no caso, aqueles vividos nas amizades — pode ampliar nossa tolerância e aproximar-nos do perdão, princípio que cultivo como espírita. Mas essas mesmas perspectivas também me ensinaram que perdoar não implica, necessariamente, continuar convivendo com quem muito nos prejudicou, moral ou materialmente, sobretudo quando essa pessoa sequer demonstrou arrependimento.
Tenho orgulho de ter construído um grupo seleto de amizades que compartilham sensibilidade, caráter, cultura, empatia e o desejo de um mundo melhor e mais democrático. Algumas nasceram de antigos amores e paixões transformados em vínculos tão sólidos que, mesmo nas discordâncias, o afeto e o respeito permanecem como balizadores, instigando-nos a repensar convicções.
Outras ainda têm arestas a serem aparadas por meio de uma escuta mais atenta e de maior empatia, mas nem por isso deixam de ser amizades. Há também aqueles que, por admiração recíproca, parecem candidatos a amigos. E existem, infelizmente, os “amigos da onça”: aqueles que nos caluniam, não nos escutam e fazem julgamentos precipitados a nosso respeito.
O passar do tempo nos leva a valorizar ainda mais esses vínculos marcantes e conquistados, pois eles são testemunhas de nossas dores, lutas, filosofias e ideologias, em uma linguagem cuja prosa, muitas vezes, beira a poesia. Ainda nos surpreendemos com novos encontros que, mesmo sem a cronologia das vivências compartilhadas, parecem antigos, como se obedecessem a um tempo lógico do afeto.
Nas amizades, também realizamos análises mútuas, sem a função própria da psicanálise, mas frequentemente consoladoras e terapêuticas, ainda que permeadas por uma dose considerável de projeções, próprias das intersecções que caracterizam esses vínculos.
Com esses camaradas de jornada, compartilhamos um humor singular, bordões, intimidade sem protocolos e uma palavra sincera, viva e sonora, numa pulsão invocante que ajuda a desterritorializar os medos, as loucuras e os lutos. Há espaço para gargalhadas, danças, um bom vinho, jantares e, sobretudo, para o silêncio acolhedor de um amigo — até o fim.





