O velho hábito do futebol brasileiro de descartar seus técnicos

A verdade é que o futebol brasileiro nunca soube, de fato, respeitar seus treinadores. A demissão de Filipe Luís no Flamengo caiu como uma bomba no noticiário esportivo. E não foi por falta de resultado imediato ou por um “vexame” em campo: ele foi desligado depois de uma vitória por 8 a 0 na semifinal do estadual, resultado que colocou o clube em mais uma final de Carioca, justamente em um clássico contra o Fluminense.

O que torna tudo ainda mais difícil de engolir é o contexto. Estamos falando de um técnico que, recentemente, conquistou o Campeonato Brasileiro e o tetracampeonato da Libertadores, feito inédito no país. Um treinador que tinha acabado de renovar contrato até 2027 e que, mesmo assim, foi descartado. No Brasil, infelizmente, isso não chega a ser surpresa. Muitas vezes, o treinador deixa de ser avaliado pelo trabalho e passa a ser refém do desejo da presidência de “agitar o mercado”, trazer um nome mais midiático, dar uma resposta rápida para a arquibancada ou simplesmente mudar por mudar.

E esse roteiro já aconteceu no Flamengo. Voltemos a 2023, quando Dorival Júnior foi demitido pela diretoria para a chegada de Vítor Pereira. Dorival havia acabado de levantar os mesmos troféus citados agora: Libertadores e Brasileirão. Ainda assim, foi trocado por um técnico português que era uma aposta, sem garantia nenhuma de que daria certo. Na prática, Filipe Luís está vivendo o mesmo filme: o clube escolhe recomeçar um trabalho mesmo quando o time, no geral, continua vencendo.

Filipe é um nome com peso. Ídolo como jogador, e agora também como técnico, é um treinador emergente, com potencial real para trabalhar na Europa. Mas bastou um período de instabilidade, após as derrotas na Supercopa do Brasil para o Corinthians e na Recopa Sul-Americana para o Lanús, para a corda estourar do lado mais fraco. No Flamengo, mais uma vez, a tolerância é mínima: um mês ruim parece valer mais do que um projeto inteiro.

E é aí que a comparação com a Europa fica inevitável. Nos principais centros, mesmo com pressão, existe uma cultura mais sólida de continuidade, de planejamento e de proteção ao trabalho. Aqui, a cada turbulência, a solução costuma ser a mesma: demitir e começar do zero, como se isso, por si só, resolvesse tudo.

Por isso, também chama atenção o que faz Leila Pereira no Palmeiras. Ela mantém Abel Ferreira e reforça publicamente que ele é o treinador do clube, mesmo com instabilidades, com a torcida pedindo demissão e até com períodos sem títulos, como aconteceu no ano passado. No Palmeiras, há algo que fica mais nítido a cada temporada: confiança no treinador. E, no futebol brasileiro, talvez isso seja mais surpreendente do que qualquer “mudança de impacto” para agradar o mercado.

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