Necessidade, desejo e psicanálise

No Projeto para uma Psicologia Científica (1895), Freud delimitou uma fronteira entre a necessidade e o desejo. A primeira seria algo da ordem de um tensionamento interno, de natureza biológica, para o qual estamos preparados a responder. Já o desejo é oriundo do inconsciente e busca retomar um registro mnemônico marcado pela experiência inaugural de satisfação.

Isso nos leva a refletir, com base na neuropsicologia — afinal, Freud era neurologista — sobre como opera nosso sistema nervoso autônomo. Um exemplo é o set point, mecanismo regulatório cerebral relacionado à saciedade. Então, perguntamo-nos: por que temos compulsões alimentares?

Nesse caso, não se trata propriamente de desejo, mas de um gozo compulsivo, que funciona como uma máscara, deslocando para outra necessidade aquilo que não diz respeito à fome em si, mas a um desejo insatisfeito. Trata-se de algo singular, ligado à relação que cada sujeito estabelece com o alimento.

Esse mesmo funcionamento pode ser observado nas demais compulsões, sempre marcadas por deslocamentos. Lembro-me de um caso em que um dependente químico se submeteu a uma cirurgia bariátrica, emagreceu, mas voltou ao uso de drogas. Em outro atendimento, trabalhei analiticamente a preparação de uma paciente para a cirurgia, processo que foi bem-sucedido justamente porque aprendemos, na escuta analítica, que ter um estômago menor não garantiria, por si só, o emagrecimento. Afinal, ela poderia comer pouco, mas optar por alimentos extremamente calóricos, como uma lata de leite condensado.

No campo da Psicologia Humanista, encontramos a Pirâmide de Maslow, que dialoga, em certa medida, com o viés psicanalítico. Essa teoria apresenta as necessidades humanas distribuídas em cinco níveis, da base ao topo da pirâmide: necessidades fisiológicas, segurança, pertencimento e afeto, estima e, finalmente, autorrealização.

É muito difícil alcançarmos aquilo que há de mais elevado nessa escala — desde a vivência dos afetos até a criação e a realização vocacional — quando convivemos com a fome e a falta de segurança. No entanto, também podemos permanecer fixados no gozo quando, por exemplo, nos acomodamos em nome da segurança, sacrificando sonhos e projetos mais amplos.

No contexto em que vivemos, marcado pela crise ambiental, o gozo do poder e a ganância do capitalismo neoliberal mostram-se cegos, conduzindo a humanidade e o planeta a uma condição crescente de desamparo.

Neste ano, ao nos dirigirmos às urnas, é fundamental que nossas necessidades e nossos desejos estejam verdadeiramente em jogo. Promessas falsas e práticas corruptas, misóginas, homofóbicas e fascistas não devem ser legitimadas pelo voto de sujeitos comprometidos com desejos saudáveis, empáticos e humanos.

Este ensaio foi inspirado na crônica poética de minha amiga Nora Prado, em que a metapoesia não separa necessidade e desejo de compartilhar dores, reminiscências da infância, o trabalho vocacionado de atriz e os sentimentos do viver, registrados ao “tecer alguns poeminhas, como brincos e colares de contas coloridas que formava ao sabor das horas…”.

Publicidade

spot_img
spot_img
Wagner Andrade
Wagner Andradehttps://realnews.com.br/
Eu falo o que não querem ouvir. Política, futebol e intensidade. Se é pra sentir, segue. Se é pra fugir, cala.

Publicidade

- Conteúdo Pago -spot_img

Publicidade