Todo mundo comemorando. Um projeto claramente popular em ano eleitoral, que busca, acima de tudo, ganhar votos. Se fosse para realmente melhorar a vida das pessoas, isso já teria sido debatido e implementado há muito tempo.
O governo Lula está há anos no poder e somente agora, com a eleição batendo à porta, faz esse movimento político.
No meu ponto de vista, o debate é importante. Muito importante. Mas esse projeto não pode ser empurrado goela abaixo sem discutir os impactos reais. Porque existe uma verdade simples: não existe almoço grátis.
Se a empresa vai dar mais um dia de folga ao funcionário, ela terá duas opções: reduzir horário de funcionamento ou contratar mais pessoas. Não existe mágica. Existe uma conta muito simples: quantos funcionários são necessários para manter o atendimento funcionando daquele horário até aquele horário.
A rede de Farmácias São João, por exemplo, que possui cerca de 24 mil funcionários e mais de 1.200 lojas no Sul do Brasil, decidiu antecipar a adoção da escala 5×2 antes mesmo da aprovação do projeto. Os trabalhadores terão dois dias de descanso por semana — que não necessariamente serão consecutivos. Um funcionário pode folgar na terça e depois no sábado ou domingo, por exemplo.
Continua valendo também a regra do domingo de descanso mensal. E a empresa ainda estuda permitir que, quando a folga cair no domingo, ela possa ser emendada com a segunda-feira, garantindo dois dias seguidos de descanso em alguns casos.
O diretor-geral da rede, senhor Pedro, fala em atender um desejo da população. Mas ele próprio reconhece: esse custo inevitavelmente será repassado aos produtos. E isso é uma lei de mercado. Mais uma vez: não existe almoço grátis.
Para grandes empresários — como Luciano Hang, da Havan, ou grupos gigantes do varejo e do setor farmacêutico — o impacto existe, mas é mais administrável diante do faturamento e do lucro dessas empresas. Agora pense no pequeno comerciante. O mercadinho do seu Zé, que tem quatro funcionários e já trabalha sufocado.
Esse pequeno empresário enfrenta uma das maiores cargas tributárias do mundo, juros altíssimos e um custo trabalhista enorme. Quando ele paga R$ 2 mil de salário para um funcionário, não desembolsa apenas isso. Tem FGTS, férias proporcionais, 13º, encargos e tributos que praticamente dobram o custo da folha.
Então, se o governo realmente estivesse preocupado em melhorar a vida do trabalhador, também discutiria reduzir impostos e aliviar a folha de pagamento das empresas. Porque não adianta simplesmente jogar o custo no colo do empresário e depois fazer propaganda dizendo que resolveu o problema.
E deixo claro: eu não sou contra o fim da escala 6×1. Acho, sim, que o trabalhador merece descansar mais, conviver mais com a família, cuidar da saúde mental e ter qualidade de vida. Vivemos num mundo acelerado, pressionado por metas e produtividade o tempo inteiro. O descanso é necessário.
Mas alguém sempre paga a conta. E, neste caso, a tendência é que essa conta chegue ao consumidor, ao pequeno empresário e até ao próprio trabalhador, dependendo dos impactos econômicos.
Minha crítica principal é justamente essa: por que o governo não divide esse custo? Por que não reduz impostos? Por que não cria incentivos para ajudar empresas a fazer essa transição?
Porque é muito fácil pegar o abacaxi e largar no colo dos outros, enquanto a propaganda na TV e na internet vende a imagem de um governo preocupado com o trabalhador.
Na prática, o governo está preocupado com arrecadação, popularidade e votos. E mais uma vez, no final da história, é o povo quem paga a conta. Custe o que custar.
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil






