Na política brasileira existe uma lógica quase automática: o mandato atual raramente é visto como ponto de chegada. Na maioria das vezes, ele é tratado como o primeiro degrau da escada para o cargo seguinte. Talvez por isso a decisão do vice-prefeito de Canoas, Rodrigo Busato, mereça mais atenção do que parece. Depois de ter o nome lembrado por lideranças de diferentes regiões do Rio Grande do Sul para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa, Rodirgo decidiu permanecer na vice-prefeitura. A justificativa oficial fala em dedicação à reconstrução da cidade, continuidade das obras e compromisso com os projetos em andamento. A notícia está aí, mas o que ela revela talvez seja mais interessante do que a própria decisão.
Veja bem. Rodrigo Busato não construiu sua trajetória passando por sucessivos mandatos eletivos. Não foi vereador, não fez carreira acumulando inúmeros cargos e sua primeira eleição foi justamente a que o levou à vice-prefeitura de Canoas. Esse detalhe muda completamente a leitura do fato. Em um ambiente onde muitos enxergam o mandato atual apenas como plataforma para o próximo desafio eleitoral, optar por permanecer onde já se está deixa de ser uma escolha burocrática e passa a dizer algo sobre a forma de encarar a política.
É claro que toda decisão política produz efeitos políticos. Se Canoas avançar, se as obras forem entregues e se os resultados aparecerem, Rodrigo Busato naturalmente fortalecerá seu capital político. Isso faz parte do processo democrático. Resultado gera reconhecimento, e reconhecimento gera credibilidade. O problema nunca foi esse. O problema começa quando a próxima eleição se torna mais importante do que o mandato atual.
Convenhamos. Não é raro encontrar políticos que mal conquistaram o primeiro mandato e já dedicam boa parte da energia ao cargo seguinte. Há vereadores que ainda estão aprendendo a rotina do plenário enquanto sonham com uma cadeira na Assembleia. Há prefeitos que assumem o Executivo já pensando na eleição seguinte, como se o mandato recebido fosse apenas um corredor de passagem. Talvez seja o velho fascínio que o poder exerce. Há quem prove a primeira colher de mel e imediatamente queira o pote inteiro.
Repare bem. Rodirgo Busato poderia ter seguido exatamente esse caminho. Convites não lhe faltaram. A candidatura era politicamente viável e provavelmente lhe abriria novas portas. Escolheu outra direção. Preferiu continuar onde acredita que pode entregar resultados concretos para Canoas.
Essa decisão, evidentemente, não transforma ninguém em exemplo de virtude. Permanecer no cargo, por si só, não merece aplausos. O mérito dependerá exclusivamente daquilo que for entregue à população. Se as obras avançarem, se os projetos forem concluídos e se a reconstrução continuar produzindo resultados concretos, sua escolha encontrará justificativa na prática. Se isso não acontecer, a permanência perderá força como argumento e passará a ser cobrada como responsabilidade assumida. É assim que deve funcionar.
Mas existe uma reflexão maior que essa notícia nos oferece. Durante décadas, a política brasileira acostumou o eleitor à ideia de que crescer significa trocar constantemente de cargo. Talvez exista outro caminho. Talvez crescer também seja aprofundar o compromisso com a função que já se ocupa antes de buscar uma nova. Porque liderança não se mede apenas pela velocidade com que alguém sobe na carreira política, mas principalmente pela capacidade de concluir aquilo que se propôs a fazer.
No fim das contas, talvez Rodrigo Busato tenha recusado uma candidatura para disputar algo muito mais difícil: construir uma trajetória e ajudar a cuidar de Canoas. E isso exige bem mais paciência do que simplesmente subir mais um degrau.





