Mostre-me uma nota fiscal, presidente, a coragem que falta ao CREA-RS

Não vou fingir que isto é sobre uma eleição de conselho profissional. Chega de cerimônia: isto é sobre dinheiro, sobre quem controla o acesso a ele e sobre quem se recusa, sistematicamente, a mostrar como o gasta. E a pergunta que interessa não é em quem os engenheiros vão votar em dezembro. A pergunta é mais simples e, por isso mesmo, mais incômoda: por que ninguém, até hoje, apresentou uma única nota fiscal detalhada da reforma do plenário do CREA-RS?

Porque é isso que se pede, presidente Nanci Walter. Não se pede opinião, não se pede justificativa retórica, não se pede nota de assessoria de imprensa com adjetivos bonitos sobre “modernização” e “excelência arquitetônica”. Pede-se planilha. Pede-se composição de custo. E, principalmente, pede-se que se explique por que um contrato de R$ 4.585.000,00 para reformar 860 metros quadrados incluiu itens orçamentários descritos simplesmente como “verba”, uma prática que o próprio Tribunal de Contas da União já teve a gentileza de restringir em decisões anteriores. Alguém sabe, com precisão, quanto custa um metro quadrado de dignidade administrativa no plenário de Porto Alegre? Porque, pelas contas dos próprios engenheiros que acompanham o processo, o valor está bem acima do que se paga em reformas de edifícios administrativos de padrão elevado. E antes que alguém me acuse de fazer acusação onde há apenas dúvida: eu não estou acusando. Eu estou perguntando. A diferença entre as duas coisas é que a pergunta pode ser respondida com documento, e a resposta, até agora, tem sido silêncio.

Vou mudar de tom por um instante, leitor, porque há um limite entre a ironia que expõe e a ironia que humilha, e prefiro ficar do lado de cá dessa fronteira. O Termo de Ajustamento de Conduta firmado em 2022 com o Ministério Público do Trabalho, por denúncias de assédio moral envolvendo a alta direção do Conselho, não é assunto para trocadilho. É assunto para apuração séria, e há ação judicial em curso justamente para verificar se as obrigações assumidas naquele acordo foram cumpridas. Registro isso não para condenar ninguém antecipadamente, porque isso também não me cabe, mas para lembrar que estamos falando de uma instituição que já reconheceu, formalmente, ter um problema de tratamento com seus próprios servidores. Isso pesa. E pesa mais ainda quando os mesmos nomes que geriram aquele período seguem no comando enquanto o Conselho investe milhões em climatização VRF para o plenário.

Agora volto ao tom que combinamos, porque a categoria merece rir um pouco antes de chorar. Doutor Fábio Chaves, candidato apoiado pela atual presidência, explique-me uma coisa com a paciência de quem não tem nada a esconder: como é que, desde segunda-feira, dezenas de profissionais recebem abordagem por robôs de WhatsApp, e o número de contato informado teria partido da ex-conselheira Nilza Zampieri? O senhor tem, à disposição, o cadastro completo de mais de cem mil engenheiros e agrônomos registrados no Rio Grande do Sul, o mesmo cadastro que a oposição não tem, o mesmo cadastro que um candidato independente jamais vai conseguir montar batendo de porta em porta. Isso é vantagem competitiva ou é campanha feita com o banco de dados da autarquia que o senhor pretende presidir? Porque, veja, historicamente apenas cerca de 10% da categoria vota, e a última eleição foi decidida por menos de 150 votos. Nesse cenário, uma lista telefônica bem distribuída não é detalhe, é o próprio resultado da eleição embrulhado para presente.

E já que estamos exigindo provas, sejamos justos: também é preciso reconhecer o que funciona. O CREA-RS não é uma instituição vazia, tem corpo técnico competente, tem servidores que trabalham fiscalização de obra sob condições difíceis, e é verdade que parte da categoria reconhece avanços pontuais em atendimento e digitalização de processos ao longo dos últimos anos. Elogiar quando cabe não é fraqueza, é honestidade, e quem só enxerga vilania onde também existe trabalho sério comete o mesmo erro de quem só enxerga virtude. O problema não é a existência do Conselho. O problema é a distância entre um orçamento de R$ 140 milhões anuais e a sensação, generalizada entre engenheiros do interior, de que a fiscalização efetiva de obras continua escassa em boa parte do Estado. Para onde vai a diferença entre o que se arrecada e o que se fiscaliza? Essa pergunta, note bem, vale para qualquer gestão, presente ou futura, e é dela que a categoria não pode abrir mão de cobrar resposta, seja quem for eleito em dezembro.

A solução, aliás, não exige nenhuma revolução. Exige o Portal da Transparência atualizado além do que se via em 2025, porque dados de diárias, jetons e passagens parados no tempo não são falha técnica, são escolha. Exige auditoria independente da reforma do plenário, com composição de BDI aberta a qualquer profissional que queira consultar. Exige que o cadastro de votantes seja disponibilizado, sob as mesmas condições, para todas as chapas registradas, e não apenas para quem já está na cadeira. Nada disso é radicalismo. É o mínimo que se espera de uma autarquia que vive de anuidade compulsória.

Fica então o convite, não a mim, que sou apenas quem faz a pergunta, mas a quem tem a obrigação de responder. Mostrem a nota fiscal. Mostrem a planilha. Mostrem de onde veio o número de telefone. O engenheiro que paga a anuidade não deve satisfação a ninguém, mas o Conselho que a recebe deve satisfação a ele, todos os anos, em cada real gasto. Até que essa satisfação venha em documento e não em nota de assessoria, a dúvida é legítima, é saudável, e continuará sendo feita.

 

Foto: Reprodução

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Wagner Andrade
Wagner Andradehttps://realnews.com.br/
Eu falo o que não querem ouvir. Política, futebol e intensidade. Se é pra sentir, segue. Se é pra fugir, cala.

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