Você não vai votar para presidente em 2026, vai votar para o STF que vai mandar em você até 2050

Ninguém vota em ministro do Supremo Tribunal Federal no Brasil, e é por isso que 2026 é a eleição mais perigosa que este país enfrenta em décadas. O eleitor escolhe deputado, senador e presidente. O presidente, sozinho, escolhe quem ocupa a cadeira mais poderosa da República. E o senador, o mesmo que promete estrada, hospital e emprego no palanque, decide na sabatina da Comissão de Constituição e Justiça se esse nome fica ou não fica. Ninguém explicou isso ao eleitor com todas as letras. Explico eu.

O calendário é público. Luiz Fux se aposenta compulsoriamente em 2028, Cármen Lúcia em 2029, Gilmar Mendes no fim de 2030. Três cadeiras, três nomeações, todas dentro do mandato do presidente que toma posse em 2027. Não é projeção de analista político, é a regra da aposentadoria compulsória aplicada ao calendário atual do tribunal. Quem for eleito em outubro deste ano vai remodelar um terço do Supremo antes de terminar o próprio governo.

E é aqui que o discurso do “não gosto de nenhum candidato, vou anular” precisa ser confrontado com uma pergunta simples: quem preenche a cadeira quando o eleitor decide não escolher? Porque ela não fica vazia enquanto o eleitor demonstra desprezo pela política. Ela é preenchida, com ou sem participação ativa do eleitorado, por alguém que o presidente escolhe e que o Senado referenda. Anular o voto, nesse caso, também é uma forma de decidir, só que abrindo mão de qualquer influência sobre a decisão. Tratar o Supremo como pauta distante, de Brasília, e não da própria cidade, é um erro de avaliação que custa caro depois.

Há um detalhe que a cobertura de política costuma tratar como nota de rodapé. Não é só o presidente que decide. É o Senado que sabatina, aprova ou barra. O mesmo rito vale, guardadas as proporções, para o Conselho Nacional de Justiça, cujos membros indicados também precisam passar pela CCJ e pela maioria absoluta do plenário. A eleição para o Senado, portanto, não é coadjuvante nessa história. O senador eleito em outubro é o mesmo que, em 2028, vai perguntar ao futuro ministro do Supremo o que ele entende por liberdade de expressão, e se trata isso como direito ou como incômodo a ser regulado por portaria.

Essa pergunta não é ideológica, é institucional. Um país em que a mesma instituição investiga, acusa, julga e ainda define a própria regra do jogo não está discutindo esquerda ou direita. Está discutindo separação de poderes, tema que raramente vira manchete antes de já ser tarde. Não afirmo que isso já ocorreu de forma consumada. Afirmo que o desenho institucional permite que ocorra, e essa margem já deveria bastar para tirar qualquer eleitor da inércia.

Não vou indicar candidato. Fazer campanha não é função de jornalista, e fazer alerta é. O alerta é este: antes de perguntar ao candidato o que ele fará pela sua rua, pergunte o que ele pensa sobre indicar quem vai interpretar a Constituição pelas próximas três décadas. Pergunte ao candidato a senador se ele sabatina por lealdade partidária ou por critério técnico. Se a resposta demorar a vir, ou vier evasiva, isso também é resposta.

O período entre 2039 e 2043 trará mais substituições, e o ciclo só se encerra, segundo o próprio levantamento, em 2050. Quem tem vinte anos hoje vai viver décadas sob decisões de ministros escolhidos a partir deste outubro. A eleição de 2026 não se resume a quatro anos de governo. Ela define, na prática, quem interpreta a Constituição por uma geração inteira.

O eleitor brasileiro costuma tratar o Supremo como assunto distante do cotidiano. Os ministros STF decidem sobre prisão, sobre imposto, sobre liberdade de expressão, sobre o que pode ou não ser publicado nas redes. Os substitutos deles já estão sendo escolhidos, ainda sem nome, na urna deste ano. Vote sabendo disso. Depois não adianta reclamar de quem ocupou a cadeira.

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Wagner Andrade
Wagner Andradehttps://realnews.com.br/
Eu falo o que não querem ouvir. Política, futebol e intensidade. Se é pra sentir, segue. Se é pra fugir, cala.

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