Duas decisões e um alerta: o Grêmio precisa mudar antes que o pior aconteça

O Grêmio vive um daqueles momentos em que toda a temporada parece ser colocada à prova em poucos dias. Nesta quinta-feira (23), o Tricolor encara os mais de 3.600 metros de altitude de La Paz para enfrentar o Bolívar, pelo jogo de ida dos playoffs da Copa Sul-Americana. É um desafio enorme para uma equipe que faz uma temporada abaixo das expectativas, sem conseguir encontrar estabilidade ou apresentar um futebol minimamente competitivo.

No papel, o elenco gremista é superior ao do adversário boliviano. Entretanto, o desempenho recente é alarmante. A falta de repertório, intensidade e poder de competição preocupa o torcedor, que conhece o peso da altitude nesse tipo de confronto. Embora a partida de volta esteja marcada para o dia 30 de julho, na Arena, o duelo desta noite será o grande termômetro da classificação.

Se o Grêmio voltar da Bolívia com uma desvantagem significativa — como uma derrota por 2 a 0, por exemplo —, será muito difícil reverter o cenário em Porto Alegre. É uma análise dura, mas coerente com o futebol que a equipe vem apresentando.

A sequência indigesta e o fantasma das eliminações

O cenário fica ainda mais delicado quando se observa a sequência de compromissos. Após o confronto contra o Bolívar, o Grêmio volta suas atenções para a Copa do Brasil, quando enfrentará o Mirassol, fora de casa, no jogo de ida das oitavas de final. Será justamente contra o adversário que venceu o Tricolor com autoridade na última rodada do Campeonato Brasileiro.

É preciso ser realista. Quando projeto a possibilidade de uma dupla eliminação, faço isso com base no momento atual da equipe. Uma queda na Sul-Americana, seguida por dificuldades diante de um adversário que já demonstrou ser mais organizado e consistente, não representa pessimismo, mas uma leitura fiel do que o Grêmio vem mostrando em campo.

No meio dessa sequência decisiva, ainda há o confronto contra o Fluminense, no domingo, na Arena. Além da pressão pelas classificações, o Tricolor precisa somar pontos no Campeonato Brasileiro para se afastar da zona de rebaixamento, que segue perigosamente próxima.

Esses mata-matas têm potencial para definir os rumos da temporada. A direção mantém publicamente o discurso de confiança e continuidade do trabalho de Luís Castro. No entanto, quem acompanha o futebol brasileiro sabe que resultados costumam falar mais alto. Caso ocorram duas eliminações em sequência, a pressão interna e externa poderá se tornar praticamente insustentável.

O mito do “tempo para treinar”

Como cronista, fui um dos que defenderam a permanência de Luís Castro e a necessidade de conceder tempo para o desenvolvimento do trabalho. Porém, minha paciência se esgotou após a pausa de mais de 30 dias no calendário.

O Grêmio teve tempo suficiente para treinar, corrigir erros e apresentar evolução. Entretanto, o primeiro jogo após esse período foi um desastre. Em vez de demonstrar crescimento, a equipe apresentou um desempenho ainda pior, perdeu peças importantes e evidenciou limitações de um elenco que já possui poucas alternativas técnicas.

Os problemas não são exclusivos do treinador. O grupo apresenta carências evidentes. Ainda assim, com o elenco que possui, o Grêmio tem obrigação de jogar mais, competir melhor e demonstrar organização — características que desapareceram da equipe nas últimas partidas.

O preço de não mudar

A pergunta que fica é inevitável: onde estão os resultados dos bons treinamentos que a direção afirma acompanhar diariamente?

Não se trata de impaciência da torcida ou da imprensa. Cobra-se apenas o mínimo: um time organizado, competitivo e capaz de apresentar alguma evolução. O que se vê, porém, é uma equipe sem identidade, sem jogadas trabalhadas e sem perspectivas claras de melhora.

Se as eliminações se confirmarem, elas representarão um duro choque de realidade para a diretoria e mostrarão que a demora em tomar decisões também tem um custo. Talvez ainda exista uma última oportunidade para mudar a rota e evitar que a temporada termine de forma trágica.

A multa rescisória de Luís Castro é elevada, mas o prejuízo esportivo e financeiro de um eventual rebaixamento seria infinitamente maior para a história do Grêmio. O futuro do clube começa a ser decidido hoje à noite, em La Paz.

Foto: Lucas Uebel

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Gustavo Guedes
Gustavo Guedeshttps://realnews.com.br/
Jornalista/cronista esportivo

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