O Grêmio voltou da pausa exatamente igual: sem tática, sem dinheiro e sem rumo

O Grêmio atravessa um dos momentos mais delicados e alarmantes de sua história recente. Quem olha para a tabela do Campeonato Brasileiro enxerga apenas o reflexo de uma crise institucional sistêmica, onde os problemas dentro das quatro linhas são meras consequências de um colapso financeiro nos bastidores. Com cofres vazios, dívidas acumuladas com outros clubes por negociações de atletas e incômodos atrasos salariais, o Tricolor joga sufocado pela própria incompetência administrativa.

A derrota por 2 a 1 para o Mirassol, na última sexta-feira, foi o retrato fiel dessa agonia. O que se viu em campo foi um Grêmio taticamente desértico, sem estrutura, sem repertório e desprovido de qualquer lampejo coletivo. Hoje, a equipe comandada por Luís Castro não é um time de futebol; é um amontoado de jogadores vestindo a mesma camisa, que se reúnem para jogar bola, incapazes de entregar o mínimo exigido pelo tamanho da instituição.

Ilusão na pausa e deserto técnico

Sinceramente, era impossível esperar algo inovador após o período de paralisação para a Copa do Mundo. Pelo contrário. Como já havíamos alertado, a tendência natural era de severa perda de qualidade técnica após as saídas do zagueiro Viery, vendido à Fiorentina, e do meio-campista Arthur, cujo vínculo se encerrou. Ambos representavam os poucos pontos de refino técnico em um elenco marcado por carências gritantes.

O retorno aos gramados trouxe uma derrota quase protocolar frente ao Mirassol. Um time que não assusta ninguém, que leva perigo zero aos adversários e cujo sistema defensivo é facilmente envolvido por qualquer ataque minimamente organizado.

O paradoxo da diretoria: O treino é bom, o jogo é ruim?

O que mais assusta o torcedor, contudo, veio após o apito final. Na entrevista coletiva, o executivo de futebol Paulo Pelaipe e o presidente Odorico Roman adotaram um discurso que beira o surrealismo: afirmaram que o trabalho no dia a dia é bom e apresenta resultados, mas que isso simplesmente “não aparece” nos jogos oficiais.

Por que não aparece? No jargão popular do futebol, quando o treino é bom e o jogo é uma tragédia, o diagnóstico costuma apontar para duas direções: ou o elenco é fraco demais para executar o que lhe é pedido, ou o excesso de treino sem rumo só piora o que já está ruim. Embora a diretoria tente blindar a comissão técnica, as justificativas soam como meras suposições para esconder o óbvio.

Realidade nua e crua: Teto é o meio da tabela

É preciso descer do pedestal e encarar a realidade: com as peças que tem hoje à disposição, o Grêmio não tem a menor condição de brigar por títulos de expressão. Não é time para isso. Por outro lado, também não é elenco para habitar a zona de rebaixamento ou a rabeira da tabela. O Grêmio atual tem teto para ser uma equipe de meio de tabela — e nada além disso.

O cenário projeta um futuro sombrio nas Copas. Nas oitavas de final da Copa do Brasil, a tendência forte é de eliminação para o próprio Mirassol. Pela Copa Sul-Americana, o prognóstico contra o Bolívar nos playoffs é igualmente pessimista.

O próximo compromisso já é nesta quinta-feira, às 19h, em La Paz. Se em condições normais de pressão o Grêmio já demonstra fragilidades físicas e táticas acentuadas, encarar os 3.640 metros de altitude boliviana pode ser o golpe de misericórdia nesta eliminatória. Trazer de lá uma derrota por 2 a 0, por exemplo, selará o destino do clube, pois este time atual não tem forças para reverter uma desvantagem desse tamanho, nem mesmo jogando na Arena.

A insistência com Luís Castro

A direção gremista optou por bancar a permanência do técnico Luís Castro. Uma escolha altamente questionável. Sob o meu ponto de vista, a demissão já deveria ter ocorrido. O treinador tem seus méritos — é inegável sua dedicação ao trabalho diário e o espaço que oferece aos jovens das categorias de base —, mas futebol profissional vive de resultados, e o que ele entrega é escasso.

Castro já testou variações, tentou implementar uma linha mais defensiva com três zagueiros e abriu mão dos pontas, mas nunca conseguiu dar constância ou solidez a nenhuma dessas formações.

O Grêmio precisa urgentemente entender sua própria realidade. Não há mais tempo para discursos corporativos de bastidores. Se o trabalho da semana é maravilhoso, mas o time não consegue competir por 90 minutos, a engrenagem está quebrada. E, no futebol, quem se nega a corrigir a rota enquanto há tempo, costuma pagar o preço mais alto ao fim da temporada.

Foto: Vinícius Silva/AGIF

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Gustavo Guedes
Gustavo Guedeshttps://realnews.com.br/
Jornalista/cronista esportivo

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