Um psiquiatra no palanque — e se ele tiver razão?

Mil pessoas num CTG em Gravataí numa tarde de sábado. Mil pessoas que foram, voluntariamente, ouvir um psiquiatra falar de política. Não um ex-governador. Não um general reformado. Não um empresário bilionário com ambições presidenciais já consagradas pela liturgia do poder. Um médico da mente. Um escritor com 42 milhões de livros vendidos. Um nome que a imprensa tradicional trata, quando muito, com aquele sorriso condescendente reservado aos candidatos que “não têm chance”.

Pois bem. Vale parar e pensar.

O que mil pessoas sabem que a imprensa ainda não descobriu

Quando a grande mídia ignora um evento político de mil pessoas, duas hipóteses se colocam: ou o evento não importa, ou a mídia não quer que importe. No caso de Augusto Cury em Gravataí, suspeito fortemente da segunda.

O Brasil está saturado. Saturado de polarização fabricada, de narrativas que só existem para manter dois campos em guerra permanente — guerra que, convenhamos, é muito lucrativa para quem vive dela. De um lado, o culto ao líder que “salvou o Brasil das trevas”. Do outro, o culto ao líder que “impediu a barbárie”. E o cidadão comum? Esse fica espremido no meio, pagando a conta dos dois.

É nesse vácuo — enorme, palpável, politicamente inexplorado — que Cury aposta. E não é uma aposta ingênua.

A proposta que ninguém quer discutir: o emprego que vai sumir

Enquanto os candidatos tradicionais disputam quem promete mais empregos com carteira assinada, Augusto Cury faz algo incomum na política brasileira: diz uma verdade incômoda. A inteligência artificial vai destruir milhões de postos de trabalho. Não talvez. Não num futuro distante. Em poucos anos.

Isso não é catastrofismo. É o que dizem o Fórum Econômico Mundial, o MIT, a McKinsey e qualquer economista que não esteja em campanha eleitoral. O Brasil, que ainda não resolveu a informalidade do século XX, terá de enfrentar a disrupção do século XXI sem nenhum colchão institucional preparado para isso.

A proposta de Cury — convocar líderes do setor privado, economistas e universidades para construir um projeto de país, não um projeto pessoal — pode soar ingênua aos ouvidos do cinismo político convencional. Mas há algo de profundamente sensato nisso. Governos que centralizaram o planejamento econômico em gabinetes ideologicamente fechados nos entregaram décadas perdidas. A ideia de um pacto amplo, técnico e suprapartidário para enfrentar a automação não é fraqueza. É maturidade.

O empreendedorismo nas escolas: simples demais para ser levado a sério?

Outro ponto que a cobertura superficial ignora: Cury propõe ensinar empreendedorismo nas escolas públicas. Reação imediata dos críticos: “ah, é neoliberalismo disfarçado de pedagogia”.

Errado.

Ensinar uma criança pobre do semiárido ou da periferia de Gravataí a identificar um problema, criar uma solução, precificar um serviço e se relacionar com clientes não é transformá-la em servo do mercado. É dar a ela o que os filhos da elite aprendem em casa, com o pai empreendedor, com a mãe executiva, com o tio que “montou um negócio”. É democratizar uma forma de pensar que, historicamente, foi privilégio de quem já tinha privilégio.

Isso é progressista ou conservador? É simplesmente necessário.

Os pilares que ele elencou — e o que significam de verdade

Cury citou cinco eixos: mulheres, professores, agricultura, o semiárido e a nação brasileira. Nenhuma novidade aparente. Todo candidato abraça essas bandeiras na boca do palanque. A diferença, se houver, estará na execução. Mas vale registrar o que há de estratégico na escolha.

Mulheres: representam mais de 52% do eleitorado e são, historicamente, o grupo mais subrepresentado nas decisões de poder. Quem as mobiliza com credibilidade ganha eleição.

Professores: a categoria mais humilhada economicamente, mais exigida socialmente e mais ignorada politicamente das últimas décadas. Um candidato que os coloca no centro da narrativa — e não apenas na retórica dos discursos de 15 de outubro — tem potencial de construir algo genuíno.

Semiárido: é o Brasil que o eixo Rio–São Paulo não quer ver. Quarenta e dois milhões de pessoas vivendo numa região com potencial agrícola, solar e hídrico inexplorado. Quem fala do semiárido como prioridade, e não como problema a ser gerenciado, enuncia uma visão de país diferente.

A pacificação: clichê ou necessidade histórica?

“Partido da pacificação” soa, à primeira escuta, como slogan vazio. Mas examine o contexto: o Brasil saiu de um quadriênio em que o presidente chamava jornalistas de vagabundos, e entrou em outro em que o presidente chama de golpistas todos os que discordam. A polarização não é um estado de opinião. É um modelo de negócio político — e ele está destruindo a capacidade do país de tomar decisões coletivas.

Um candidato que se recusa, estruturalmente, a tratar o adversário como inimigo a ser abatido não é ingênuo. É, ao contrário, alguém que entendeu o que os radicalistas de ambos os lados não entenderão nunca: que democracia não é guerra. É negociação permanente entre visões diferentes de bem comum.

Cury tem formação em escuta. Quarenta anos ouvindo o sofrimento humano num consultório. Isso, curiosamente, pode ser a melhor preparação possível para um cargo público — especialmente num país que precisa, antes de tudo, ser ouvido.

A questão que fica

Não sei se Augusto Cury será presidente. As estruturas partidárias são brutais, o fundo eleitoral distorce o campo de batalha e a mídia tem seus favoritos. Mas sei que mil pessoas num CTG gaúcho num sábado à tarde dizem algo sobre um Brasil que quer uma terceira via que não seja apenas um terceiro candidato de sempre com nome diferente.

O pré-candidato do Avante pode não chegar ao segundo turno. Mas as perguntas que ele levanta — sobre o emprego na era da IA, sobre a escola que não prepara para o mundo real, sobre a polarização como armadilha — essas perguntas não vão embora só porque ele eventualmente não vença.

E talvez seja essa a contribuição mais honesta que um psiquiatra-escritor pode fazer à política brasileira: não necessariamente ganhar, mas obrigar o debate a crescer.

 

A Real News acompanha o cenário político nacional com olhar crítico e independente.

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Wagner Andrade
Wagner Andradehttps://realnews.com.br/
Eu falo o que não querem ouvir. Política, futebol e intensidade. Se é pra sentir, segue. Se é pra fugir, cala.

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