A greve, o Ideb e a pergunta que o sindicato de Canoas ainda não respondeu

Há momentos em que uma reivindicação legítima começa a perder a nitidez. Não porque o direito desapareça, mas porque a narrativa se embaralha. E, quando a narrativa se embaralha, alguém precisa fazer a pergunta desagradável. Aquela que ninguém quer responder em assembleia, em nota sindical ou em palanque político.

No caso da greve dos professores municipais de Canoas, a pergunta é simples: se o Ideb não serve como critério de valorização educacional, qual índice serve?

Até agora, pelo que se sabe, o sindicato rejeita a vinculação de gratificação a melhorias no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, mas não apresentou à sociedade uma alternativa objetiva, verificável e pública para medir o avanço da qualidade do ensino. Eis o problema. E ele não é pequeno. É grave.

Porque uma coisa é discutir salário, carreira, piso, reposição, progressão e condições de trabalho. Tudo isso é legítimo. Outra, bem diferente, é tratar com desconfiança qualquer tentativa de vincular valorização profissional a resultado educacional.

A escola pública existe para quem mesmo?

Para o sindicato? Para a prefeitura? Para vereador? Para grupo político? Ou para o aluno?

Convém lembrar o óbvio, já que o óbvio anda precisando de escolta: o Ideb não é uma invenção de Canoas, não saiu da cabeça de um secretário municipal em manhã de inspiração tecnocrática, nem é um capricho do prefeito. O Ideb é o principal indicador nacional da educação básica brasileira. Ele combina dois elementos centrais: desempenho dos estudantes em avaliações nacionais e fluxo escolar. Em português claro: mede se o aluno aprende e se avança na trajetória escolar.

É perfeito? Não. Nenhum índice é. Mas é público, nacional, comparável e compreensível. E, sobretudo, obriga o sistema a olhar para aquilo que deveria estar no centro: a aprendizagem.

A rejeição ao Ideb, portanto, não pode ser tratada como detalhe lateral da greve. Ela revela muito.

Revela, antes de tudo, uma tensão antiga na educação pública brasileira: todos falam em valorização, mas poucos aceitam discutir cobrança de resultado. Todos falam em qualidade, mas quando surge um instrumento de aferição, logo aparece uma coleção de ressalvas. Algumas são justas, sim. O contexto social pesa. A infraestrutura pesa. A ausência de monitores pesa. A vulnerabilidade das famílias pesa. A defasagem histórica pesa. Tudo isso é verdade.

Mas daí a concluir que não se deve medir nada vai uma distância enorme.

Se o Ideb é insuficiente, que se proponha outro modelo. Se ele precisa ser corrigido por critérios sociais, que se apresentem pesos, fórmulas, indicadores complementares. Se a nota bruta da escola é injusta, que se premie a evolução em relação ao ponto de partida. Se há risco de distorção, que se construa um mecanismo mais inteligente.

Mas simplesmente rejeitar a gratificação vinculada ao desempenho educacional, sem oferecer alternativa objetiva, é politicamente revelador.

Nos documentos encaminhados pela Prefeitura de Canoas à Câmara, vê-se que o Executivo sustentou a adequação ao piso nacional do magistério, com efeitos retroativos a janeiro de 2026, além de impacto sobre ativos e inativos. Também há demonstração de impacto orçamentário, com projeções para 2026, 2027 e 2028. Ou seja: goste-se ou não da proposta, há números sobre a mesa.

O município apresentou números. A Câmara votou. Os projetos avançaram. A categoria rejeitou. A greve continuou. Muito bem. Agora falta a parte essencial: qual é exatamente a métrica pública que o sindicato aceita para vincular valorização a aprendizagem?

Porque não basta dizer “queremos valorização”. Todos querem. O servidor quer. O contribuinte quer serviço melhor. A família quer escola funcionando. O aluno quer aprender. A cidade quer resultado.

A pergunta adulta é: valorização em troca de quê?

Em uma democracia séria, salário público não é abstração moral. É despesa pública. Sai do orçamento. E orçamento não nasce em árvore de assembleia. Cada real destinado a uma política tem impacto sobre outras. Por isso, quando uma categoria reivindica aumento, reposição, progressão, gratificação e novas contratações, ela tem o dever político — sim, político — de explicar à sociedade qual retorno institucional está oferecendo.

E aqui entramos no terreno incômodo.

Parte da esquerda sindical brasileira se acostumou a tratar qualquer métrica de desempenho como se fosse ataque neoliberal, conspiração empresarial ou tentativa de “culpabilizar” o professor. É um truque retórico velho. Funciona em plenária. Funciona em panfleto. Mas começa a falhar diante de pais que estão com filhos sem aula e querem saber, com razão, onde está o interesse do aluno nessa história.

Não se está dizendo que o professor é o único responsável pelo Ideb. Não é. Seria uma estupidez. O resultado educacional depende de gestão, estrutura, material, família, território, assistência social, saúde, segurança, frequência, currículo e acompanhamento pedagógico. Mas também depende, evidentemente, da escola. E a escola não é uma entidade abstrata. É feita de gestão e professores.

Logo, uma política de valorização que inclua indicadores de aprendizagem não deveria ser tratada como afronta. Deveria ser ponto de partida para uma negociação séria.

O sindicato poderia dizer: “Não aceitamos o Ideb isolado, mas aceitamos um índice municipal composto por aprendizagem, frequência, redução da evasão, alfabetização na idade certa, evolução por escola, vulnerabilidade social e cumprimento de metas pedagógicas.”

Pronto. Estaria no jogo. Teria apresentado alternativa. Teria elevado o debate.

Mas, até aqui, a impressão pública é outra: rejeita-se o Ideb, reivindica-se aumento real, exige-se valorização, mas não se oferece um parâmetro substituto claro para medir o principal produto da rede municipal de ensino: o aprendizado dos estudantes.

E isso expõe uma contradição. Se a educação é prioridade, o desempenho dos alunos precisa ser prioridade. Se o aluno é o centro, a aprendizagem precisa ser medida. Se a valorização profissional é pauta pública, o resultado educacional também tem de ser.

Não há valorização docente sustentável sem confiança social. E a confiança social se constrói com transparência, responsabilidade e compromisso verificável.

A greve em Canoas começou com pautas de classe. Mas a recusa ao Ideb abriu uma janela mais ampla: revelou a dificuldade de parte do movimento em aceitar que a sociedade também tem o direito de cobrar resultado.

Professor merece respeito. Isso é indiscutível.

Mas aluno também merece aula. Família também merece previsibilidade. Contribuinte também merece saber para onde vai o dinheiro. E a cidade também merece uma educação que possa ser medida, comparada e melhorada.

O Ideb pode ser criticado. Pode ser aperfeiçoado. Pode ser combinado com outros indicadores. Pode, inclusive, ser substituído por um índice municipal mais completo — desde que alguém tenha a coragem técnica e política de apresentá-lo.

O que não dá é rejeitar o termômetro e, ao mesmo tempo, pedir mais recursos para tratar a febre.

No fim, a pergunta permanece, seca, incômoda e necessária: se não querem o Ideb, qual índice aceitam?

Enquanto essa resposta não vier, a greve deixa de ser apenas uma disputa salarial. Passa a ser também uma disputa sobre responsabilidade pública. E repito, novamente, é política.

E Canoas tem o direito de saber quem está disposto a medir a educação — e quem prefere apenas discursar sobre ela.

 

Foto: Edson Traub

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Wagner Andrade
Wagner Andradehttps://realnews.com.br/
Eu falo o que não querem ouvir. Política, futebol e intensidade. Se é pra sentir, segue. Se é pra fugir, cala.

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