Mãe e Maternidade

É um chavão dizer que o Dia das Mães, comemorado neste domingo, dia 10, deve ser celebrado todos os dias. No entanto, essa afirmação pode nos servir como ponto de partida para refletirmos sobre os lugares maternos no cotidiano, nas alteridades e nas diversidades, com suas questões objetivas e subjetivas.

Oportunamente, a partir de um recorte clínico de análise, escuto uma mãe madura que acumulou a função paterna por amor, assumindo o lugar de uma “supermãe”. Suas naturais mágoas em relação a um filho agressivo e ausente vêm provocando nela somatizações.

Recentemente, minha analisanda apresentou uma secreção estranha no seio. Tomando como referência o conceito de “seio bom” e “seio mau”, de Melanie Klein, que relaciona, respectivamente, a presença e a ausência materna, pontuei que ela poderia estar oferecendo um seio não nutritivo, atravessado por seus ressentimentos. Nesse caso, curiosamente, quem abandonava a relação não era a mãe, como comumente se espera em certas leituras simbólicas, mas o filho, em uma dinâmica marcada por uma presença excessiva da maternidade.

Esse recorte nos ajuda a pensar a presença e a ausência como elementos fundamentais das relações. Freud, ao observar o neto brincando com um carretel, alternando a visibilidade do brinquedo e dizendo “fort-da”, percebeu naquela brincadeira uma forma de lidar com a falta da mãe. Essa ausência, inevitavelmente, precisa acontecer na dose certa para a saúde mental da criança.

John Bowlby, teórico do desenvolvimento, dizia que as mães devem ser “suficientemente boas”. Uma mãe que pretende ser a melhor, inclusive inibindo a entrada do pai — ou do terceiro que participa da resolução edípica — pode contribuir para a formação de filhos com sofrimentos psíquicos importantes.

Da mesma forma, uma mãe que não olha, não acolhe e não sustenta emocionalmente seu filho pode produzir marcas profundas no desenvolvimento subjetivo da criança. Ainda que determinados diagnósticos pertençam ao campo do neurodesenvolvimento, como psicanalista, jamais esqueço a influência do ambiente, da escuta, da subjetividade e dos vínculos. Não podemos reduzir o sujeito a uma máquina neural nem a um destino exclusivamente genético.

Na contemporaneidade, todas essas questões devem ser vistas, como indicou Lacan, pela via da função materna, que pode se apresentar em formas diversas de maternidade: na adoção, nas famílias homoafetivas, nas mães solo, nas avós, nas tias e em tantas outras configurações de cuidado.

Faço minhas as homenagens de Shakira, em seu show em Copacabana, às mães solo. Ao apontar, com identificação pessoal, os duros desafios enfrentados pela falta de apoio, ela deu visibilidade a uma realidade vivida por mais de 20 milhões de mulheres brasileiras. Só por isso, o show já foi maravilhoso.

As mães, em suas diversas funções, serão suficientemente boas quando oferecerem qualidade de presença, sustentação afetiva e marcas pulsionais por meio da palavra, do olhar e do toque. É esse corpo marcado pelo amor que participa da constituição do sujeito psíquico.

Isso se torna ainda mais fundamental na aceitação daqueles que não correspondem às expectativas narcísicas de perfeição, seja por limitações físicas, intelectuais ou por não se enquadrarem no desejo binário instituído de serem masculinos ou femininos dentro de uma lógica heteronormativa.

Neste dia, convoco as mães que desejam ser felizes nessa função a passarem também pela experiência da análise pessoal. Saúdo, com emoção, a memória das minhas três mães, das quais recebi amor, força, sensibilidade, caráter e resiliência.

Obrigado pelo “seio bom”, mãe Leocádia. Obrigado, minha maninha-mãe, Ana Maria, pelo teu olhar lindo. Obrigado à minha mãe-cunhada, que me adotou, me escutou como ninguém e me estimulou com sua proteção, caráter e inteligência imensos: Nilza Fontella.

Feliz Dia das Mães a todas, todos e todes que exercem essa função nada fácil, mas tão essencial, que é a função materna.

*ilustração: Mother and Twins IV de Gustav Klimt

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Gaio Fontella
Gaio Fontellahttps://realnews.com.br/category/opiniao/blog-do-gaio/
Gaio Fontella – Psicólogo e psicanalista, graduado e pós-graduado pela UFRGS. É comentarista e produtor do canal Café com Análise, no YouTube, e atua como coordenador da ONG Desafios, em Porto Alegre.

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