Trabalho e Psicologia

Em vista do 1º de maio, Dia do Trabalho, resolvi compartilhar o quanto trabalhar é importante para as pessoas, tanto em sua presença quanto em sua ausência, e quais são as implicações disso na saúde mental do trabalhador. Neste texto, destaco também minha trajetória e a atuação do psicólogo e psicanalista que me tornei, fazendo uma homenagem aos meus colegas de profissão.

Entrei no curso de Psicologia da UFRGS já maduro, aos 45 anos. Foi um grande desafio enfrentar a concorrência com uma galera jovem, no segundo curso mais difícil da universidade, depois da Medicina. Eu já atuava havia cerca de 14 anos como terapeuta holista, com florais, reiki e terapias corporais. Senti a necessidade de avançar, visto que já era estudioso das matrizes da Psicologia e tinha um encantamento especial pela Psicanálise.

Escuto com muita atenção meus analisandos em suas questões relacionadas ao trabalho e à aposentadoria, numa dosimetria entre satisfação e lutos pelas perdas no campo laboral, que também diz respeito ao lugar a partir do qual o sujeito se percebe.

O trabalho vocacionado é visto, psicanaliticamente, como um sintoma. Via de regra, não se escolhe uma profissão ao acaso. Essa escolha carrega marcas de identificação, expectativas e percepções do sujeito de desejo em relação ao seu lugar cidadão como trabalhador, que deve, com princípio de realidade, buscar valorização.

Frequentemente, perguntam-nos sobre as diferenças entre o trabalho do psicólogo e o do psicanalista. Costumamos dizer que, no curso de Psicologia, encontramos várias psicologias: desde as linhas do desenvolvimento humano até a TCC, a abordagem humanista, a Gestalt, a Terapia Reichiana, a terapia de família, entre outras.

A Psicologia Social e Institucional tem um olhar voltado para a produção de subjetividade nas relações sociais e em nosso vínculo com o instituído. Essa foi uma das ênfases que escolhi, na perspectiva de acolher o sofrimento psíquico do trabalhador, especialmente quando há nexo causal com sua atividade laboral.

Uma surpresa foi constatar que alguns profissionais da Psiquiatria, com os quais dialogamos, viam como acidente de trabalho apenas os casos físicos, desconsiderando o sofrimento psíquico de trabalhadores. É o caso, por exemplo, da Síndrome de Burnout, provocada pela pressão por resultados, seja em um banco, seja em um serviço de telemarketing.

Minha segunda ênfase e minha pós-graduação foram na clínica psicanalítica. Nessa perspectiva, bem trabalhar e bem amar, pelo viés freudiano, seriam objetivos da análise. É isso que consigo conjugar em minha atuação clínica. Em seu projeto para uma Psicologia científica, Freud percebeu a imponderabilidade dos mecanismos inconscientes, que poderiam ser trabalhados por meio da palavra.

Lacan, com suporte da Linguística de Saussure, desenvolveu seu trabalho aprimorando o diagnóstico das psicopatologias e apostando no sujeito do inconsciente, dividido, em busca de clarear seus desejos. No processo analítico, paulatinamente, vamos observando nos analisandos uma relação diferenciada com a linguagem e com a percepção de si.

Na Psicanálise em extensão, articulando-a com minha ênfase em Psicologia Social e Institucional, produzo aquilo que escrevo e também atuo no ativismo pelas políticas públicas da comunidade LGBT+. Na Conferência Estadual da Diversidade Gaúcha, em 2025, pude aprovar a proposta de termos mais psicólogos LGBT+ no SUS, capacitados para atender nossa comunidade.

Poder trabalhar com o sofrimento psíquico é gratificante, tendo o amor transferencial entre analisando e analista como base. Quem se analisa passa a construir um patrimônio subjetivo para bancar seus desejos, conquistando uma resiliência singular neste planeta tão adoecido, marcado por tanta poluição da pulsão de morte no meio social, na política, nos conflitos violentos e nas relações familiares.

Este é um investimento que podemos fazer juntos. Viva o Dia do Trabalhador e viva nossa atuação como psicólogos, sustentada pela base ética de lutar contra toda forma de opressão e discriminação.

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Gaio Fontella
Gaio Fontellahttps://realnews.com.br/category/opiniao/blog-do-gaio/
Gaio Fontella – Psicólogo e psicanalista, graduado e pós-graduado pela UFRGS. É comentarista e produtor do canal Café com Análise, no YouTube, e atua como coordenador da ONG Desafios, em Porto Alegre.

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