A Maior Felicidade que Não Vivemos

Dizem que o futebol é a única religião onde o deus pode ser vendido no mercado de pulgas. Para o gremista, essa máxima não é apenas uma frase de efeito; é uma cicatriz que lateja toda vez que o nome de Ronaldinho ecoa pelos corredores da memória. Ele foi a nossa maior felicidade, mas uma felicidade em estado de potência, um abraço que ficou no vácuo, o gol de placa que o destino resolveu anular por falta de caráter comercial.

Ao ouvir a melancólica e visceral “Quem dá mais”, de Antônio Marcos, é impossível não projetar aquela silhueta dentuça sobre o palanque do leiloeiro. A letra nos apresenta um eu lírico que oferece seus princípios, sua fé e sua lealdade a uma plateia indiferente, apenas para descobrir que, no fim das contas, tudo tem um preço de etiqueta.

“Quem dá mais por um cara que ousou acreditar nos seus”

 Em 2011, o Olímpico se preparava para um banquete. As caixas de som estavam empilhadas, o Rio Grande do Sul estava em transe e o coração do torcedor pulsava na cadência do “filho pródigo”. Acreditávamos que o futebol ainda guardava um santuário para o pertencimento, onde a camisa pesava mais que o ouro. Estávamos errados. Fomos o “homem que acreditou” da canção, estendendo as mãos para um ídolo que, na verdade, já estava de costas, observando os lances do leilão.

A metáfora é dolorosa: Ronaldinho foi o banquete que apodreceu na mesa enquanto os convidados batiam palmas para o garçom que o levou embora. Ele foi o carnaval que não desfilou, a taça que nos foi mostrada de longe e depois guardada no cofre de outro. Para o Grêmio, ele não foi uma perda técnica; foi a prova de que a nossa esperança também estava no lote de vendas.

A alusão bíblica da música a figura que foi vendida, pregada e nada mudou se materializa na recepção hostil que o craque passou a ter em Porto Alegre. O sacrifício, no entanto, não trouxe redenção, apenas o entendimento amargo de que o futebol moderno é um mercado de carnes raras. Onde nós víamos um escudo, ele via um ativo. Onde nós víamos o pátio de casa, ele via um contrato de publicidade.

Ronaldinho foi, em essência, a maior felicidade que o gremista não viveu porque ele escolheu ser o produto no leilão de Antônio Marcos. Quando o martelo bateu e o locutor gritou que “outro deu mais”, não foi apenas um jogador que partiu para o Rio de Janeiro. Foi o último resquício de inocência de uma torcida que descobriu, da forma mais cruel, que até o amor de infância pode ser arrematado por quem tiver o cheque mais pesado.

No fim da crônica de nossas vidas, Ronaldinho é o capítulo que escrevemos com lágrimas e apagamos com raiva. Ficamos com a música, com a melancolia e com a certeza de que, naquele leilão da vida, nós demos o nosso melhor, mas o mercado não aceita sentimentos como moeda de troca.

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Lucas Elgui
Lucas Elguihttp://realnews.com.br
Jornalista e cronista esportivo, com olhar crítico e sensível sobre o futebol. Acumula passagens por grandes portais como Terra e Futebol BR, sempre trazendo análises diretas, opinião forte e conexão com o torcedor.

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