Gosto de filmes que cutucam a história. Não aqueles que apenas empilham datas e discursos, mas os que revelam bastidores, contradições e jogadas silenciosas de poder. Talvez por isso Legalidade me provoque tanto fascínio. A trama gira em torno das manobras políticas que antecederam a posse de João Goulart e do movimento liderado por Leonel Brizola — episódio real, tenso, decisivo, daqueles que mudam o rumo de um país enquanto a maioria ainda tenta entender o que está acontecendo.
Há algo de irônico nisso tudo: o filme mostra tentativas de golpe contra Jango, quando o movimento da Legalidade foi, na vida real, uma reação justamente para garantir a Constituição. Brizola aparece como figura central, incansável na defesa da posse presidencial, usando o rádio como trincheira e a palavra como arma. A arte imita a vida — mas nem sempre sem retoques.
E aí surgem as licenças poéticas. Personagens inventados, cenas dramatizadas, diálogos que nunca aconteceram. São quatro figuras que não existiram fora da tela e que pouco alteram o desfecho histórico. Não chegam a incomodar, mas lembram ao espectador atento que cinema e realidade raramente caminham de mãos dadas por completo.
Talvez por isso cause certo alívio saber que outras produções se esforçam em seguir mais de perto os fatos documentados, como Ainda Estou Aqui. Há algo reconfortante quando a narrativa audiovisual não tenta preencher lacunas com exageros, mas com silêncio, contexto e respeito às fontes.
Nem todos os retratos históricos, porém, recebem o mesmo olhar benevolente. A trajetória de Rubens Paiva, por exemplo, costuma ser tratada com sobriedade e cuidado. Já outras figuras e movimentos aparecem em obras recentes sob lentes mais controversas. Marighella e O Agente Secreto dividem opiniões, sobretudo quando exibem ações violentas praticadas por militantes de esquerda durante o período da ditadura — lembrando que a história raramente é feita apenas de heróis imaculados ou vilões unidimensionais.
Talvez seja isso que provoque certo riso irônico: discursos que transformam grupos inteiros em santos da paz eterna, quando os arquivos e os filmes — até os mais simpáticos a determinadas causas — insistem em mostrar uma realidade mais áspera, cheia de escolhas difíceis e atos questionáveis.
No fim das contas, o cinema histórico funciona como espelho imperfeito. Reflete o passado, sim, mas sempre com as digitais de quem segura a câmera. Cabe ao público assistir, desconfiar, pesquisar depois — e entender que a verdadeira crônica do país continua sendo escrita fora das telas, entre documentos, memórias e disputas que ainda ecoam décadas depois.



