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Se não consegue cuidar do gramado, não poderia disputar campeonato

Há um tipo de precariedade que não é apenas feia — é criminosa no sentido moral da coisa. E o gramado do Estádio dos Eucaliptos, do Avenida, do jeito que se apresenta, entra nessa categoria: não é “ruim”, não é “abaixo do ideal”, não é “um pouco irregular”. É um risco. É uma pista de acidentes disfarçada de campo de futebol.

Observem: o relvado aparece manchado, com áreas visivelmente irregulares, diferenças claras de densidade e cobertura, como se fosse um colcha de retalhos verde. O problema não é estético. Não se trata de “frescura”, de “exigência de time grande”, de “mimimi de quem quer tapete europeu”. Trata-se do óbvio: futebol profissional não pode ser jogado num piso que trai o atleta. Um gramado assim não é um adversário; é um sabotador.

E aí entra um detalhe que, na verdade, é a síntese do escândalo: antes do jogo, o gramado foi pintado de verde para esconder as imperfeições. Repare no grau de desfaçatez. Não é manutenção; é maquiagem. Não é cuidado; é tentativa de enganar o olhar — como se tinta resolvesse desnível, buraco, falha de cobertura, irregularidade de piso. Pintar para “parecer” gramado é a confissão de que não há gramado em condição. É o truque barato aplicado a um ambiente onde o preço pode ser uma lesão séria.

A pergunta que o bom senso faz — aquele bom senso que, no Brasil, vive com escolta — é direta: um clube que não consegue manter um gramado minimamente decente tem condições de disputar competições? Não tem. Ponto. Se você não garante integridade do campo, você não está pronto para colocar gente correndo, freando, mudando de direção, girando o joelho a cada dois segundos. Isso não é pelada; é profissão. É saúde ocupacional. É responsabilidade civil.

“Ah, mas o Avenida tem tradição, tem história, tem torcida, tem dificuldade financeira…” Pois é. E eu também sei que o futebol do interior apanha da concentração de receitas e do cartel disfarçado que manda no espetáculo. Mas tradição não reconstrói ligamento cruzado. História não recompõe menisco. E “dificuldade” não autoriza a roleta-russa com a perna dos outros.

O pior é a hipocrisia institucional que cerca essas situações. Existe vistoria, existe regulamento, existe laudo, existe inspeção, existe toda uma liturgia burocrática — e, no entanto, todo mundo vê o que está diante dos olhos: um gramado que não oferece previsibilidade. E quando o campo não oferece previsibilidade, ele vira armadilha. Futebol é jogo de erro humano; não pode ser jogo de erro do chão.

Quem paga essa conta? O atleta. Sempre ele. O profissional que tem carreira curta, que vive do corpo, que sustenta família com o corpo. Aí ele pisa num ponto ralo, o pé “afunda” mais do que deveria, a passada desencaixa, o joelho torce, a coxa estoura, o tornozelo vai embora. E, no dia seguinte, o coro cínico: “faz parte”, “acontece”, “infelicidade”. Infelicidade, coisa nenhuma. Isso tem nome: negligência.

E há ainda a deformação esportiva, que é a segunda camada da indecência. Um gramado assim distorce competição. Premia o chutão, pune o jogo apoiado, reduz o futebol a um exercício de sobrevivência. Não é “característica do mando”; é adulteração do campeonato. Isonomia começa no chão.

A pergunta que deveria constranger dirigentes e autoridades do futebol gaúcho é simples: se isso é aceitável, então o padrão foi rebaixado a um nível vergonhoso. Qual é a régua? “Dá para jogar”? Dá para dirigir com pneu careca também. Até a hora em que não dá mais. E aí aparece a nota oficial, a comissão, a entrevista protocolar. O Brasil adora o pós-tragédia porque ele vem com desculpa pronta.

Não, não deveria existir “tolerância” com gramado sem condições. Não se trata de perseguir clube menor; trata-se de protegê-lo também — e proteger o campeonato. Porque o clube que normaliza isso está aceitando a mediocridade estrutural como destino. E, pior, está usando o atleta como escudo: “a gente faz o que dá”. Não. O que dá, às vezes, é não jogar. O que dá é mandar o jogo para outro estádio. O que dá é adequar, interditar, reformar. O que não dá é fingir que está tudo bem — e ainda por cima pintar de verde para simular normalidade.

Há um mínimo civilizatório no esporte profissional. Gramado é infraestrutura essencial, como ambulância, como policiamento, como iluminação. Imagine um estádio “aprovado” sem ambulância: seria escândalo. Pois um gramado que aumenta risco de lesão é escândalo do mesmo tamanho — só que normalizado, empurrado para debaixo da tinta.

Se o futebol quer ser levado a sério, precisa parar de tratar o básico como luxo. E se o clube não consegue cumprir o básico, não deveria disputar competição que exige esse básico. Não é castigo; é critério. É proteção ao campeonato e, sobretudo, ao trabalhador do futebol.

O resto é conversa fiada. E conversa fiada, como sabemos, é a especialidade nacional quando falta coragem para chamar as coisas pelo nome. Aqui vai o nome: campo sem condições de jogo não é “problema de manutenção”. É falta de responsabilidade. E responsabilidade, no futebol, deveria ser inegociável.

Foto: Luciano Rolla

 

 

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Wagner Andrade
Wagner Andradehttps://realnews.com.br/
Eu falo o que não querem ouvir. Política, futebol e intensidade. Se é pra sentir, segue. Se é pra fugir, cala.
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