Regime militar: conceitos, diferenças e o debate contemporâneo

O termo regime é amplo e frequentemente utilizado de forma imprecisa no debate público. Ele pode se referir a diferentes formas de organização do poder político, como regimes democráticos, ditatoriais, totalitários, populistas, de esquerda ou de direita. A distinção correta entre esses conceitos é fundamental para compreender a história política e evitar generalizações simplistas.

Em entrevista sobre o tema, o professor de História Gunter Axt explica que ditadura é um tipo específico de regime autoritário. Em geral, está associada a forte presença militar, mas nem sempre é conduzida exclusivamente por militares. “Há ditaduras lideradas por civis”, afirma Axt, citando como exemplo a ditadura castilhista-borgista, ocorrida no Rio Grande do Sul durante a Velha República, marcada por autoritarismo mesmo em um contexto formalmente republicano.

Segundo o historiador, existem diferentes níveis de ditadura. Algumas permitem certo grau de oposição política e até realizam eleições, ainda que com severas restrições e manipulações. Outras são extremamente fechadas. A Coreia do Norte, por exemplo, é classificada como um regime totalitário, pois controla praticamente todos os aspectos da vida social, política e econômica da população. Embora promova eleições, o resultado é invariável: o líder supremo obtém 100% dos votos, o que evidencia a ausência total de liberdade política.

Gunter Axt também alerta para um equívoco comum: nem todo país com forte presença militar é uma ditadura. O nível de militarização, seja no governo ou no orçamento destinado à Defesa, não define por si só o caráter autoritário de um regime. A Coreia do Sul é citada como exemplo de um país altamente militarizado, em razão de sua situação geopolítica, mas que mantém um sistema democrático, com eleições livres, alternância de poder e garantias institucionais.

No contexto latino-americano atual, o professor é categórico ao afirmar que o regime venezuelano pode ser caracterizado como uma ditadura. Segundo ele, trata-se de um governo que concentrou poder, suprimiu liberdades, perseguiu opositores e conduziu o país a um profundo processo de empobrecimento da população.

Para Axt, compreender essas diferenças é essencial para qualificar o debate político e histórico. “Usar os termos corretos não é apenas uma questão acadêmica, mas um passo necessário para entender a realidade e defender a democracia”, conclui.

Sequestro de Maduro reacende debate sobre soberania e direito internacional

A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças estrangeiras — episódio que ganhou repercussão internacional — reacende um dos debates mais sensíveis da política global: a violação do princípio da soberania nacional e o enfraquecimento do Direito Internacional.

Em análise, o professor de História Gunter Axt afirma que esse tipo de intervenção não é inédita. “Não é a primeira vez que os Estados Unidos agem à margem das normas internacionais na América Latina”, destaca. Segundo ele, a operação representa uma ruptura grave com regras básicas da convivência entre Estados e cria um precedente perigoso.

Para Axt, a ação ocorreu sem qualquer consulta a aliados históricos da Europa, o que evidencia o caráter unilateral da decisão. “Esse tipo de iniciativa forja uma liberação tácita para que outras potências façam o mesmo. A partir de agora, como condenar, com autoridade moral, a agressão russa à Ucrânia?”, questiona o historiador, apontando a contradição no discurso internacional.

O professor relembra que a última operação similar dos Estados Unidos na América Latina ocorreu em 1989, no Panamá. Na ocasião, cerca de 30 mil soldados norte-americanos foram mobilizados para derrubar o então ditador Manuel Noriega, acusado de envolvimento com o narcotráfico. Noriega foi sequestrado e levado para Miami, onde acabou julgado e condenado a 40 anos de prisão. Duas décadas depois, foi extraditado.

“Com o fim da Guerra Fria, acreditou-se que intervenções desse tipo não voltariam a ocorrer”, observa Axt. No entanto, segundo ele, o episódio envolvendo Maduro demonstra que a lógica da força ainda se impõe sobre o direito, especialmente quando interesses geopolíticos estão em jogo.

O caso tende a aprofundar tensões internacionais e a fragilizar ainda mais os mecanismos multilaterais criados para evitar ações unilaterais, recolocando a América Latina no centro de disputas globais que muitos julgavam superadas.

Há risco de um novo regime militar? Especialista aponta cenário de incertezas globais

Questionado sobre a possibilidade de emergência de um regime militar diante dos acontecimentos recentes, o professor de História Gunter Axt avalia que o momento ainda é marcado por forte instabilidade e indefinição. Segundo ele, embora a prisão de um ditador represente um fato de grande impacto, isso não significa, ao menos por ora, uma redefinição de regime político.

“É difícil imaginar como os fatos do presente serão lidos no futuro”, afirma Axt. Para o historiador, a reação da comunidade internacional será determinante para compreender os desdobramentos do episódio, mas, até o momento, não há sinais claros de uma mudança institucional consolidada.

O professor descreve o atual cenário global como um campo de tensões simultâneas. De um lado, observa-se o que ele define como uma tentativa de retorno a práticas típicas do século XIX, marcadas por um “frenesi oligárquico”, com militarização crescente e arroubos imperialistas sem freios. De outro, surgem movimentos consistentes em direção à multipolaridade, ao fortalecimento das periferias, à autonomia democrática e à preocupação ambiental.

Para Axt, esses elementos indicam o possível surgimento de novas formas de governança, capazes de substituir estruturas políticas desgastadas e descredibilizadas. “Há indícios muito claros de uma nova sensibilidade no horizonte”, observa, ressaltando que ainda não é possível prever qual dessas forças prevalecerá.

Apesar da cautela, o historiador chama atenção para a velocidade e a radicalidade das transformações em curso. Ele avalia que eventos de grande impacto podem ocorrer já na segunda quinzena de janeiro, com novos desdobramentos relevantes previstos para abril.

“O ano de 2026 talvez esteja entre aqueles que marcam o século, nos quais acontecem fatos que informam decisivamente as décadas seguintes”, conclui Axt. Segundo ele, a história pode estar entrando em uma fase de mudanças aceleradas, em que tudo pode acontecer de forma rápida e profunda.

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Leilane Beck
Leilane Beckhttp://pensereal.com
Jornalista independente, baseada em evidências, múltiplas fontes e contexto histórico.
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