Retórica do chavismo retoma acusações contra Israel e judeus em meio a crise política

Em janeiro de 2009, durante a Guerra de Gaza, o então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, classificou as ações militares de Israel como “terrorismo de Estado”. Na ocasião, Chávez comparou Israel às atrocidades cometidas pelo regime nazista de Adolf Hitler e defendeu que líderes israelenses fossem julgados por crimes de guerra.

Pouco depois, o governo venezuelano rompeu relações diplomáticas com Israel e expulsou o embaixador israelense em Caracas, alegando solidariedade ao povo palestino. A decisão marcou uma ruptura inédita entre os dois países e consolidou o alinhamento do chavismo a um discurso fortemente crítico ao Estado israelense.

Esse posicionamento político e retórico permaneceu como herança do chavismo e segue presente no governo de Nicolás Maduro. Em meio a recentes tensões internacionais e à repercussão de ações envolvendo o presidente venezuelano, aliados do regime passaram a apontar supostos inimigos externos como responsáveis pelos acontecimentos.

Em discurso transmitido pela televisão estatal, a vice-presidente Delcy Rodríguez afirmou que a ação contra Maduro teria “tintas sionistas”, sem apresentar provas que sustentassem a acusação. A declaração gerou críticas de especialistas e de entidades que alertam para o uso recorrente e impreciso do termo “sionismo”.

Nas últimas horas, a palavra passou a ser utilizada com frequência por autoridades e apoiadores do regime venezuelano para acusar Israel, judeus ou ambos indistintamente. Segundo o portal Israel de Fato, trata-se de uma retórica sem base factual que funciona como um “apito de cachorro” — uma mensagem codificada facilmente reconhecida por grupos antissemitas.

A estratégia resgata estereótipos históricos do antissemitismo, ao atribuir de forma coletiva aos judeus a responsabilidade por conspirações, golpes ou articulações “nas sombras”, prática amplamente documentada ao longo da história e que volta a ganhar espaço no discurso político contemporâneo.

Lideranças de Israel apoiaram de forma unânime a decisão do presidente dos Estados Unidos. A reação era considerada previsível: a medida já alimenta acusações falsas e sem qualquer fundamento contra judeus, repetindo narrativas historicamente usadas em momentos de crise política e diplomática.

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Leilane Beck
Leilane Beckhttp://pensereal.com
Jornalista independente, baseada em evidências, múltiplas fontes e contexto histórico.
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