Trabalhei no Palácio Piratini em um espaço marcado pela história política brasileira é conviver diariamente com ecos do passado. No Rio Grande do Sul, a memória do Movimento da Legalidade, liderado por Leonel Brizola em 1961, ainda ressoa como um dos episódios mais emblemáticos da defesa da democracia no país.
Ao fechar os olhos, é possível imaginar o clima de tensão vivido naquele período. Em agosto de 1961, após a renúncia inesperada do presidente Jânio Quadros, setores das Forças Armadas tentaram impedir a posse do vice-presidente João Goulart, contrariando a Constituição.
A reação partiu do então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que organizou o Movimento da Legalidade, mobilizando a população, parlamentares e militares legalistas em defesa da ordem constitucional.
Brizola utilizou a Rádio da Legalidade como principal ferramenta de comunicação, conclamando o povo à resistência pacífica e alertando para o risco de um golpe militar.
O movimento evitou um confronto armado de grandes proporções e resultou em uma solução política: a adoção do parlamentarismo, que permitiu a posse de João Goulart.
O episódio se tornou referência histórica e ganhou releituras no cinema, como no filme Legalidade, frequentemente comparado a produções recentes como Ainda Estou Aqui e Marighella.
As semelhanças entre essas obras estão na retratação de personagens que enfrentaram regimes autoritários em diferentes contextos.
Em Ainda Estou Aqui, o ex-deputado Rubens Paiva é apresentado como um político comprometido com as causas populares e com a defesa da democracia.
Assim como Brizola, Paiva acreditava na atuação institucional, no diálogo e na negociação como caminhos para a transformação social — uma postura que acabou lhe custando a própria vida durante a ditadura militar.
Já Carlos Marighella, retratado no filme homônimo, representa outra vertente da resistência ao regime. Militante comunista e defensor dos mais pobres, ele optou pela luta armada como estratégia contra a repressão estatal. Suas ações incluíram assaltos a bancos e confrontos diretos com forças de segurança, acreditando que a revolução só seria possível por meio da violência revolucionária.

Essa escolha, embora compreendida por seus apoiadores como resposta à brutalidade do Estado, também deixou um rastro de mortes e aprofundou o clima de medo e instabilidade. A comparação entre essas trajetórias evidencia dois caminhos distintos adotados durante um dos períodos mais sombrios da história brasileira.
De um lado, a defesa da legalidade, da negociação política e da mobilização popular pacífica; de outro, a opção pela radicalização e pelo enfrentamento armado. Ambos surgiram em um contexto de autoritarismo, mas produziram consequências igualmente duras.
No centro desse embate, porém, estão as vítimas invisíveis da história: as famílias que perderam pais, filhos e irmãos. Muitas vezes, nem o Estado repressivo nem os grupos armados se lembraram do impacto humano de suas decisões. O resultado foi um país profundamente marcado por traumas que atravessam gerações.

Revisitar esses episódios é fundamental não apenas para compreender o passado, mas para refletir sobre o presente. A história da Legalidade, de Rubens Paiva e de Marighella serve como alerta sobre os riscos da polarização extrema e da violência política.
Em qualquer contexto, a democracia só se sustenta quando a vida humana e o diálogo permanecem no centro das decisões.
Reflita:
Ao observar os três filmes, fica a impressão de que os conflitos e a escalada da guerra são frequentemente associados a projetos políticos de esquerda, enquanto a direita aparece, em muitos momentos, vinculada ao discurso da ordem e da paz social.
No entanto, essa leitura simplificada ignora um aspecto central: em diversas situações, as decisões tomadas por ambos os lados desconsideram o impacto direto sobre as famílias e a população civil.
Nesse contexto, a trajetória de Leonel Brizola surge como um contraponto relevante. Embora identificado com a esquerda, Brizola destacou-se por uma atuação voltada à defesa da legalidade e dos interesses do povo, especialmente daqueles que mais precisavam da presença do Estado.
Obs: a foto que escolhi de capa não poderia ser outra.



