O Partido dos Trabalhadores não tem um plano de combate à pobreza. Tem um plano de administração da pobreza, o que é coisa bem diferente, e convém que se diga assim, sem rodeios, já na primeira linha. Porque combater a pobreza é fazer com que ela deixe de existir. Administrá-la é mantê-la viva, sob controle, em dose homeopática, o suficiente para doer mas não o bastante para acabar. E administração de pobreza, convenhamos, é um negócio eleitoralmente lucrativo. Basta ver o calendário.
Dias 17 de setembro, com a campanha já em sua reta final, o governo anuncia reajuste de 15,02% no Bolsa Família a partir de outubro. Poucos dias depois, no dia 21, a pesquisa Quaest revela Lula com 56% das intenções de voto entre os beneficiários do programa num eventual segundo turno, contra 27% a 30% de Flávio Bolsonaro. O Datafolha, na mesma semana, foi ainda mais generoso com o presidente: 60% a 33%. Coincidência? Que espécie de coincidência tem data marcada no calendário eleitoral e desconto automático na conta do INSS do orçamento público?
Não estou dizendo que o eleitor pobre é ingênuo. Estou dizendo o oposto, e aqui peço ao leitor que note a mudança de registro, porque agora vou elogiar, não ironizar: o eleitor pobre é extremamente racional. Ele vota em quem paga a conta do mês. Isso não é falha de caráter, é sobrevivência. O problema não está em quem recebe. Está em quem projeta, ano após ano, com a precisão de um contador de seguradora, uma política pública desenhada para nunca deixar de ser necessária.
Porque é aí que mora o busílis, para usar palavra fora de moda mas ainda exata. Um programa de transferência de renda bem-feito tem vergonha de si mesmo. Ele quer o próprio fim. Ele mede sucesso pela redução do número de beneficiários, não pelo aumento. Já reparou o leitor em algum discurso oficial que celebre a queda no número de famílias inscritas no Bolsa Família? Eu também não. Celebra-se sempre o aumento do valor, a ampliação do público, o recorde de cobertura. Um projeto de emancipação social não comemora recorde de dependentes. Comemora recorde de egressos.
E cabe aqui, para ser justo com os fatos, reconhecer o que há de real na melhora econômica recente: desemprego em 6,2%, o menor patamar em uma década, inflação rondando a meta, um PIB que volta a crescer, ainda que em ritmo de quem manca. Não vou fingir que isso é ilusão. É dado, e dado bom. Mas aqui é que entra a pergunta que os sacerdotes da generosidade compulsória preferem não responder: se a economia melhora, por que o reajuste do Bolsa Família chega justamente agora, e não um programa de qualificação profissional vinculado ao benefício, um prazo de transição para o mercado formal, um bônus por contratação de egresso do programa? Porque isso resolveria o problema. E quem resolve o problema perde o eleitor que o problema produz. Os urbanistas de gabinete da esquerda brasileira sabem construir currais eleitorais melhor do que sabem construir pontes de saída deles.
Há até uma ironia que os próprios dados entregam de bandeja. A pesquisa BTG Pactual/Nexus mostrou que o reajuste recente pouco moveu o ponteiro entre os beneficiários, que já estavam praticamente saturados de apoio ao petista. Ou seja: nem para comprar votos a dinheiro público está sendo eficiente. O que resta, então? Resta o hábito. Resta a mão estendida que já não sabe fazer outro gesto.
Fica a pergunta, sem verniz: o que o PT teme mais, a pobreza ou a autonomia de quem deixa de precisar dele? A resposta está no próprio desenho da política, que distribui peixe com fidelidade de relógio suíço e nunca ensinou ninguém a pescar, porque quem pesca não faz fila em setembro esperando decreto.
Quem vive de auxílio aprende a agradecer. Quem vive de emprego aprende a exigir. Enquanto o Brasil não trocar a gratidão pela exigência, continuará reelegendo quem sabe, com precisão de contador, o preço exato da sua lealdade.
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