Número de pessoas em situação de rua cresce 97,4% durante governo Lula

O número de pessoas em situação de rua registradas no Cadastro Único para Programas Sociais praticamente dobrou no Brasil entre dezembro de 2022 e junho de 2026. O total passou de 198,7 mil para 392,4 mil no período, crescimento de aproximadamente 97,4% durante os primeiros três anos e meio do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em números absolutos, são cerca de 193,7 mil registros a mais em relação ao último mês de 2022. Dividida pelo período transcorrido, a diferença corresponde a uma expansão média próxima de 4,6 mil pessoas cadastradas por mês. Levantamentos publicados a partir dos dados do CadÚnico apontam que, entre 2019 e 2022, o crescimento médio havia ficado em torno de 2 mil registros mensais.

A dimensão do contingente chama atenção. Se as 392,4 mil pessoas registradas formassem um município, sua população seria superior às estimativas de 2026 para Vitória, com 343,9 mil habitantes, Palmas, com 333,1 mil, e até Rio Branco, estimada em pouco mais de 390 mil moradores.

Os números, no entanto, exigem uma distinção importante. O Cadastro Único não é um censo da população que está fisicamente nas ruas em uma determinada data. Trata-se de um registro administrativo utilizado pelo poder público para identificar famílias e pessoas de baixa renda e permitir acesso a políticas e programas sociais. No caso da população em situação de rua, o cadastramento também pode ocorrer por meio de Centros Pop, CREAS, CRAS e equipes de abordagem social.

Isso significa que o avanço dos registros não pode ser interpretado automaticamente como uma medição censitária do número de pessoas dormindo nas ruas naquele momento. A definição oficial de população em situação de rua inclui, por exemplo, pessoas que utilizam logradouros públicos como espaço de moradia ou sobrevivência, além daquelas que recorrem a unidades de acolhimento temporário.

Ao mesmo tempo, a magnitude do crescimento registrado pelo CadÚnico coloca o problema social em evidência. O sistema também passou por mudanças nos últimos anos. Em 2025, o governo federal implantou uma nova plataforma, com maior integração entre bases públicas e mecanismos voltados à atualização e qualificação das informações cadastrais. Essas alterações precisam ser consideradas na interpretação da evolução da série.

Comparações de longo prazo também exigem cautela. Estudos sobre a utilização do CadÚnico para medir a população em situação de rua apontam mudanças nos critérios de identificação e recálculos da série histórica. Por essa razão, percentuais calculados entre anos distantes podem variar conforme a metodologia adotada e não devem ser tratados como uma série censitária uniforme.

As diferenças ficam evidentes quando os dados administrativos são confrontados com levantamentos presenciais realizados por municípios. Na cidade de São Paulo, por exemplo, o Censo da População em Situação de Rua realizado pela prefeitura identificou 31.884 pessoas no fim de 2021. Deste total, 19.209 estavam em logradouros públicos e 12.675 em serviços de acolhimento.

A comparação direta entre um censo municipal e o Cadastro Único, porém, possui limitações. Enquanto o censo procura localizar e contar pessoas em determinado período e território, o CadÚnico funciona como registro administrativo e acompanha pessoas cadastradas para acesso a políticas sociais.

O próprio IBGE reconhece a fragmentação das fontes existentes sobre o tema. O instituto prepara o primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua, cuja coleta nacional está prevista para julho de 2028. Segundo o órgão, CadÚnico, Censo SUAS e registros municipais serão utilizados como referências para dimensionar a operação, mas o novo levantamento terá metodologia própria e padronizada para todo o país.

Até que exista uma contagem nacional com metodologia censitária uniforme, o Cadastro Único permanece como uma das principais referências para acompanhar a evolução da população vulnerável atendida pelo Estado. O dado de junho de 2026, com 392,4 mil pessoas registradas em situação de rua, revela uma expansão expressiva em relação ao final de 2022 e amplia a pressão sobre as políticas públicas de assistência social, saúde, emprego e habitação.

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