O despertar no cimento

Eu sou um homem equilibrado ao acordar. Mas é um equilíbrio frágil, que se desfaz logo cedo, diante do espelho do banheiro, por pensamentos imediatistas que fazem a rotina me encarar de frente. Saio de casa e respiro fundo o ar frio da manhã de inverno. O estômago em jejum exige passos largos para chegar cedo ao trabalho, já que o café e o pão com manteiga gratuitos não são servidos a funcionários atrasados.

Caminho rápido por uma rua de lojas espelhadas com vitrines de manequins sem expressão, meu olhar vagueando em meio ao caos urbano. Estaciono meu corpo no cruzamento da avenida ao lado de pessoas enfileiradas na beira da calçada como maratonistas aguardando a largada. Motores rugem impacientes no asfalto.

Ao abrir-se o sinal, a multidão avança numa arremetida ansiosa contra o tempo. Eu empaco no meio da rua, paralisado por não sei quê, envergonhado por interromper o fluxo alheio. Buzinas e xingamentos tentam me mover. Não conseguem, estou em transe, vejo a cidade de fora. A pressa das pessoas no labirinto de cimento lembra um desenho animado de rostos sem vontade e pernas robóticas. Identifico essa insanidade coletiva. O meu instante de hesitação não é uma falha, é um acerto da consciência. Percebo que minha vida segue um padrão coreográfico de conduta. Então, me pergunto: quando foi que assinei essa cláusula de venda da minha paz, meu tempo e minha capacidade de contemplação?

Desperto da paralisia, atordoado por questionamentos e empurrões. Ando o resto do percurso até o trabalho com óculos que revelam uma outra realidade. Observo as árvores espremidas em minúsculas porções de terra, com suas raízes quebrando o cimento que as sufoca, numa briga por espaço. Somos, como árvores urbanas, reprimidos em um ambiente projetado para nos conter e manter alinhados. No entanto, apesar de toda a opressão, existem raízes rebeldes e mentes inconformadas para desafiar a arquitetura do sistema.

Por mais intimidante que a cidade seja, com suas paredes altas de concreto e luzes de neon tentando cegar a percepção, eu sinto, sob o peso dos meus passos acelerados, uma força viva que clama por um sentido real para a vida. É uma lucidez quase profética, silenciosa. Sim, existe o silêncio que se esconde do barulho do trânsito. Um silêncio antigo que questiona a tentativa de apagar o passado, de cobrir a memória do solo fértil com uma promessa de eficiência asfáltica.

Chego, enfim, no prédio do meu trabalho, atrasado, de barriga vazia e mau humor. Cumprimento ninguém e me dirijo rapidamente a minha mesa, quando ouço colegas perguntando o que houve. Paro, olho para o chão do escritório, e respondo que não foi um atraso, foi um ganho. Uma interrogação (para mim, um silêncio escondido) se apossa de todos.

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