Lula abre Assembleia-Geral da ONU com discurso em contraponto a Trump

Nesta manhã de terça-feira, 22 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abre o debate de líderes da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, nos Estados Unidos.

Lula irá discursar antes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e deve apresentar temas com uma visão de contraponto à do americano.

O presidente chegou aos EUA no domingo, 20 de setembro, e concentrou sua agenda de segunda-feira na preparação final do discurso e em encontros com seus aliados internacionais. Ao longo da segunda-feira, Lula fez os últimos ajustes no texto ao lado de sua equipe de assessoria internacional do governo.

De acordo com seus auxiliares, a ideia é mostrar Lula em contraposição a Trump no discurso, sendo uma espécie de “anti-Trump” em assuntos como democracia, comércio e paz mundial.

A campanha do presidente do Brasil quer usar esse discurso neste importante evento para colocar o presidenciável brasileiro como um “estadista” e mostrar a diferença entre ele e Trump, que é apoiador de seu principal adversário nas eleições, o senador Flávio Bolsonaro.

Um dos eixos deve ser a erosão do multilateralismo, em que Lula deve defender como o enfraquecimento da cooperação entre os países provoca impactos na realidade das pessoas em diversas áreas: segurança/paz, emergência climática, saúde, comércio e soberania nacional. Neste espectro, também é esperado que o presidente faça críticas às Nações Unidas e volte a defender uma reforma no Conselho de Segurança.

O discurso deve ser crítico em relação às questões dos conflitos globais e ao que Lula tem dito publicamente sobre a ameaça à soberania de países da América Latina, como o que ocorreu no início do ano na Venezuela com a captura de Nicolas Maduro.

Tentativa de interferência nas eleições

A expectativa é de que Lula dedique uma parte de seu discurso para defender a soberania brasileira e criticar o que avalia serem tentativas externas de interferência nas eleições do Brasil.

Ele não deve mencionar diretamente os Estados Unidos ou o nome de Trump. Porém, segundo interlocutores, haverá recados direcionados não apenas aos EUA, mas também a outros países que, para Lula, tentam influenciar as eleições no Brasil, como, por exemplo, a Argentina e Israel.

Para a sua equipe, os Estados Unidos representam a maior ameaça à sua reeleição, principalmente por serem o país das big techs, das gigantes de tecnologia, e pelo protagonismo estadunidense na geopolítica.

As eleições no Brasil não serão o tema central do discurso de Lula. Porém, o governo entende que esse tema se tornou relevante, pois, na avaliação da diplomacia nacional, “a democracia e o multilateralismo estão sob ataque”.

Outros temas que serão abordados

  • defesa do multilateralismo;
  • defesa de negociações de paz;
  • defesa da não interferência nos assuntos internos dos países;
  • respeito ao direito internacional humanitário;
  • combate ao crime organizado;
  • meio ambiente;
  • inteligência artificial.

Segundo diplomatas que estão acompanhando o presidente, a ideia é que ele apresente iniciativas brasileiras e a visão do Brasil sobre o cenário internacional.

Também devem entrar na pauta do presidente na ONU o combate ao crime organizado e a cooperação internacional.

A orientação é que Lula destaque as ações adotadas pelo Brasil e a importância da cooperação entre os países, sem direcionar seu discurso especificamente a Trump, ao Primeiro Comando da Capital (PCC) ou a episódios recentes envolvendo o tema.

Reforma do Conselho e eleição na ONU

Um dos temas abordados ao longo de seu mandato em relação à ONU é a defesa da reforma do Conselho de Segurança, pois, para ele, o órgão não tem a mesma capacidade de evitar conflitos entre países nem de mediar soluções pacíficas quando algum de seus membros se envolve em guerras.

Vale destacar que o Conselho tem atualmente cinco membros permanentes (EUA, Rússia, China, Reino Unido e França) e dez não permanentes, que se revezam e têm mandato de dois anos.

O presidenciável tem frisado que Estados Unidos e Rússia estão, de forma direta e indireta, envolvidos em guerras, e isso coloca em xeque a capacidade do Conselho de evitar conflitos, pois, no modelo atual, os cinco países permanentes têm poder de veto, ou seja, qualquer decisão do Conselho só vai adiante se for aprovada por esses países. Neste cenário, Lula quer que o Conselho seja ampliado e possa contar com mais países na condição de permanentes, como o Japão, a Alemanha, a África do Sul e o Brasil.

Outro tema relevante é a sucessão na ONU, em que, neste ano, a organização definirá o sucessor de António Guterres no cargo de secretário-geral.

O Brasil defendia, seguindo o critério da rotatividade, a candidatura da ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, uma mulher latino-americana. Porém, a ex-presidente retirou sua candidatura após perder o apoio de seu próprio país.

A escolha será feita pela Assembleia Geral da ONU a partir de uma indicação dos membros do Conselho de Segurança.

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