Receber um diagnóstico de câncer costuma marcar o início de uma sequência de consultas, exames e decisões que precisam ser tomadas em um período de grande vulnerabilidade para o paciente. Em Porto Alegre, o Hospital Ernesto Dornelles (HED) criou uma iniciativa para organizar esse percurso e tentar reduzir o intervalo até o começo do tratamento.
Batizado de Rota 28, o projeto tem como objetivo fazer com que pacientes elegíveis iniciem o primeiro tratamento em até 28 dias após a disponibilização do laudo anatomopatológico final, que confirma o diagnóstico.
Implantada em março de 2026, a iniciativa já acompanhou 150 pacientes e criou um fluxo de navegação para integrar consultas, exames, avaliações e encaminhamentos necessários antes do início da assistência oncológica.
O acompanhamento é realizado de forma integrada por oncologistas, profissionais de enfermagem e equipe administrativa. A proposta é identificar pendências e situações que possam exigir maior rapidez, evitando atrasos que poderiam ser reduzidos com uma melhor articulação entre as etapas.
Projeto surgiu após experiência com paciente
A ideia para criar o Rota 28 surgiu depois que profissionais do hospital acompanharam o caso de um paciente que já tinha o diagnóstico de câncer confirmado, mas enfrentou uma espera considerada excessiva até começar o tratamento.
O episódio levou a equipe a questionar como poderia atuar não apenas na assistência depois da chegada do paciente ao tratamento, mas também no caminho percorrido entre a confirmação da doença e o início da terapia.
“Foi numa sexta-feira à tarde que a gente se perguntou o que mais poderia fazer. Naquele momento, percebemos que não bastava oferecer um bom tratamento dentro do Hospital. Também precisávamos cuidar do caminho que o paciente percorre até chegar a ele.”
A declaração é do oncologista Gabriel dos Anjos, coordenador do Centro de Oncologia do HED.
A partir dessa reflexão, o hospital passou a estruturar um modelo de acompanhamento mais próximo dos pacientes com diagnóstico confirmado, buscando diminuir obstáculos e organizar as etapas necessárias para o início do atendimento.
Navegação acompanha cada etapa da jornada
No funcionamento do Rota 28, resultados positivos de exames anatomopatológicos são sinalizados para que a equipe possa acompanhar o caso e auxiliar na definição dos próximos passos.
O projeto também prevê interlocução com laboratórios de patologia, com o objetivo de agilizar a comunicação dos resultados ao hospital.
Segundo Gabriel dos Anjos, a proposta é transformar as informações disponíveis sobre o atendimento em um processo coordenado de cuidado.
“O objetivo é transformar a informação assistencial em cuidado coordenado. A equipe acompanha cada etapa, identifica pendências e atua para que barreiras evitáveis não prolonguem a jornada do paciente.”
Com a navegação, o paciente não precisa concentrar sozinho a tarefa de organizar consultas, exames, avaliações e encaminhamentos em um momento marcado pela preocupação com o diagnóstico.
“Hoje, temos uma equipe multidisciplinar que acompanha esse paciente. São oncologistas, enfermeiros, técnicos e assistentes administrativos atuando de forma integrada e com atenção especial a essa jornada”, explica o coordenador.
Entre os pacientes elegíveis que já começaram o tratamento, a média registrada entre a disponibilização do laudo anatomopatológico final e o primeiro tratamento foi de 21 dias.
Tratamento varia conforme cada caso
A definição da terapia depende das características e necessidades de cada paciente. Entre as modalidades possíveis estão cirurgia, radioterapia e quimioterapia.
Independentemente do tratamento indicado, o projeto busca manter o acompanhamento da jornada e articular as diferentes etapas necessárias até o início da assistência.
A experiência também está sendo utilizada pelo hospital para avaliar a possibilidade de criar fluxos semelhantes em outras situações nas quais resultados de exames necessitem de uma avaliação médica mais rápida.
Hospital reúne equipe multidisciplinar
O Rota 28 faz parte da estrutura de atendimento oncológico do Hospital Ernesto Dornelles, que reúne profissionais de diferentes áreas para acompanhar os pacientes.
O Centro de Oncologia conta com oito médicos oncologistas e cinco hematologistas, além de dois médicos residentes, cirurgiões oncológicos, nutrólogos e profissionais de cuidados paliativos, psicologia, enfermagem oncológica, nutrição e fisioterapia.
O hospital também mantém retaguarda médica de oncologia em regime de escala para apoio em situações de urgência e discussão de casos.
Com a iniciativa, o HED amplia a proposta de cuidado para além da etapa do tratamento, passando a acompanhar de forma estruturada também o percurso necessário para que o paciente chegue à assistência oncológica.
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