Grêmio e Santos se enfrentam neste sábado, 23 de maio, às 19h, na Arena, em Porto Alegre, pelo Campeonato Brasileiro. Todos os profissionais escalados pela CBF estão oficialmente aptos a trabalhar — e isso precisa ser dito com todas as letras, porque é a verdade formal. Mas a verdade formal, no futebol brasileiro, costuma conviver com outra verdade, mais incômoda: a de que alguns desses nomes já protagonizaram episódios que a própria entidade reconheceu como problemáticos. Foram punidos. Foram reciclados. Voltaram. Sem explicação pública. Sem critério declarado. Como se o afastamento fosse um intervalo, e não uma consequência.
Bruno Arleu de Araújo, carioca, é o árbitro central da partida. Não é a primeira vez que seu nome carrega peso antes mesmo de uma bola rolar.
Em 2022, a CBF reconheceu oficialmente um erro seu em lance envolvendo Yago Pikachu, então no Fortaleza, numa partida contra o Goiás. O árbitro não marcou pênalti — mesmo após revisão recomendada pelo VAR. A entidade o afastou temporariamente e o encaminhou a processo de reciclagem. O reconhecimento do erro não estava em disputa. Estava no comunicado oficial.
Em abril de 2025, Bruno Arleu voltou ao centro da polêmica. Em Sport x Palmeiras pelo Brasileirão, marcou dois pênaltis a favor do time paulista na vitória por 2 a 1. O segundo, em lance com Raphael Veiga, foi contestado por analistas, comentaristas e ex-árbitros. A CBF afastou a equipe inteira após a partida. Medida administrativa. Oficial. Registrada.
Poucos dias depois — e aqui a pergunta se impõe naturalmente — o mesmo Bruno Arleu foi escalado para Paysandu x Bahia pela Copa do Brasil. Marcou outro pênalti que gerou protestos do Paysandu. O técnico Luizinho Lopes afirmou publicamente que sua equipe havia sido prejudicada. A CBF chegou a divulgar o áudio do VAR referente ao lance.
Em janeiro de 2026, o presidente do Atlético-MG, Sérgio Coelho, abordou o árbitro na zona mista após Atlético-MG x Palmeiras e dirigiu-lhe críticas severas à atuação — episódio que consta na súmula oficial da partida. Documentado. Formal. Público.
O que se pergunta não é se Bruno Arleu vai errar no sábado. Árbitros erram — em todos os campeonatos, em todos os países. O que se pergunta é: qual o critério da CBF para punir um profissional numa semana e colocá-lo de volta em campo de alto impacto na outra, sem qualquer comunicação à sociedade esportiva?
Rafael Traci, de Santa Catarina, será o responsável pelo VAR na Arena. Seu currículo recente merece registro preciso — e aqui os fatos falam por si.
Em 2023, Traci atuou no VAR em Botafogo x Palmeiras. O Botafogo vencia por 3 a 1. O zagueiro Adryelson foi expulso após revisão de vídeo. O time carioca perdeu de virada por 4 a 3. John Textor, dono da SAF do Botafogo, publicou críticas à condução da análise de imagens, questionando as escolhas de ângulos feitas durante a revisão.
Traci acionou a Justiça contra Textor, pedindo indenização e a retirada das publicações. O Judiciário negou o pedido liminar para impedir que o empresário citasse publicamente o nome do árbitro. A ação seguiu seu curso — sem conclusão definitiva sobre o mérito —, mas o direito de crítica foi preservado. A Justiça não disse que Textor tinha razão no mérito. Disse que ele podia falar.
Em 2022, Traci já havia sido substituído da função de VAR em São Paulo x Palmeiras após polêmica em Internacional x Botafogo. Na ocasião, a CBF informou que a equipe passaria por avaliação de desempenho técnico.
Dois episódios de afastamento ou substituição. Um processo judicial. E a cabine do VAR reservada para este sábado.
Thiago Henrique Neto Correa Farinha, assistente 2 da partida, integrou a equipe de arbitragem de Sport x Palmeiras em abril de 2025 — exatamente o jogo que resultou no afastamento coletivo determinado pela CBF. Não há acusação individual contra ele. Não existem registros de erro atribuído especificamente à sua função naquela partida. Mas seu nome está vinculado ao episódio, e ele retorna ao lado do mesmo árbitro principal, como se o contexto não existisse.
Elmo Alves Resende Cunha, escalado como AVAR2, já esteve associado a partidas de forte repercussão. Em Flamengo x Bahia pelo Brasileirão de 2021, atuou no VAR em lance de pênalti que gerou debate público — a CBF chegou a divulgar o áudio da conversa da equipe de vídeo, e comentaristas apontaram erro na marcação. Sua presença ao lado de Rafael Traci na cabine compõe um painel que, por sua própria história, será observado com lupa.
Erros de arbitragem existem no futebol brasileiro como existem no inglês, no espanhol e no alemão. Ninguém com bom senso pede infalibilidade. O que se pede — e é uma exigência legítima de clubes, torcedores e da imprensa — é transparência sobre os critérios.
Quando a CBF afasta um árbitro e o recoloca em campo sem explicação, ela não protege o árbitro. Ela o expõe. Ela o lança de volta a uma arena onde seu histórico precede cada decisão, onde cada lance duvidoso acenderá memórias de Recife, de Belém, de Belo Horizonte. E ela expõe também os clubes, que entram em campo sem saber por qual lógica aquela equipe foi escolhida.
Grêmio e Santos jogarão futebol neste sábado. Isso é o que importa — e é o que deve importar. Mas enquanto a CBF se recusar a explicar publicamente como escala, como pune e como reabilita seus árbitros, a arbitragem continuará sendo pauta antes, durante e depois dos jogos. Por culpa não dos árbitros, mas da instituição que os gerencia sem prestar contas a ninguém.
Foto: IDFC
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