Essa temática instiga reflexões importantes sobre o que circula nas redes sociais, na mídia convencional e nos debates eleitorais. É relevante, sobretudo, diante da crítica à “polarização” e da ideia de que ela deveria ser superada por meio de uma suposta “terceira via” para o Brasil e para os poderes que sustentam a democracia. É uma questão também pertinente ao trabalho clínico e psicanalítico.
Ora, numa sociedade dividida em classes, não é possível imaginar que a dicotomia entre direita e esquerda simplesmente desapareça. Desde a burguesa Revolução Francesa, no Parlamento, existe também o Centro, que muitas vezes se apresenta como essa terceira via. E que os incautos não o confundam com o chamado “Centrão”, situado majoritariamente à direita e marcado pelo fisiologismo e pelas barganhas políticas em torno de cargos e votos.
É verdade que já tivemos períodos de menor polarização, como quando uma frente ampla lutou contra a ditadura, durante a realização da Constituinte e no movimento “Fora Collor”. Porém, os avanços decorrentes dessas lutas — passando pela grande mobilização do “Combate à Fome”, liderada por Herbert de Souza, o Betinho, até políticas de enfrentamento à fome nos governos Lula — fizeram com que questões objetivas e subjetivas contribuíssem para uma radicalização das posições, inclusive no sentido dos princípios de classe.
Acredito que isso tenha relação com uma espécie de “recalque” de setores mais desumanos da burguesia, que não admitem perder privilégios, pagar mais impostos ou assistir aos filhos dos pobres ingressando nas universidades e tornando-se doutores. Somam-se a isso as políticas de ascensão social, o combate à misoginia, as cotas para pessoas negras e outros grupos historicamente discriminados, tanto no trabalho quanto nas universidades, além de leis protetivas que ganharam espaço, embora ainda estejamos muito aquém de uma verdadeira equidade.
A desrealização também apareceu nas entrevistas dos candidatos: na mentira, na negação da corrupção, do golpismo e de diferentes acusações e controvérsias envolvendo personagens da vida pública. No campo que se apresenta como “terceira via”, vimos setores da própria burguesia em disputa entre si, acompanhados de propostas como a privatização ampla de estatais, além de demagogias, projetos pouco claros e soluções mágicas para problemas complexos.
Houve, por exemplo, promessas de resolver a segurança pública em apenas um ano de governo, propostas de redução de garantias trabalhistas históricas, discursos simplistas sobre soberania, ideias controversas do ponto de vista constitucional e dos acordos internacionais, referências à construção de uma “bomba atômica”, combate ao feminicídio com drones e uma gestão de caráter ultraneoliberal e tecnocrático, com inteligência artificial substituindo agentes públicos, entre outras proposições.
Lula, na sabatina conduzida por Renata Vasconcellos e César Tralli, não me parece ter sido prejudicado. Não fugiu dos temas mais polêmicos, inclusive daqueles relacionados a seu filho, Lulinha, diante de suspeitas e questionamentos públicos sobre possíveis relações com personagens ligados ao Banco Master.
Ao mesmo tempo, faltou espaço para destacar avanços que seus defensores atribuem ao atual governo, como o aumento do emprego, iniciativas voltadas à redução das filas do INSS, o debate sobre a redução da jornada 6x1 e as propostas para um eventual próximo mandato. Ainda assim, esclarecer temas utilizados por adversários para desgastar sua imagem foi politicamente importante.
Como princípio de realidade, se existem questionamentos sobre a atuação de Alexandre de Moraes em episódios relacionados ao Banco Master, que sejam investigados dentro do devido processo legal, sem que isso implique desviar a atenção de outros vínculos, denúncias ou investigações envolvendo diferentes personagens políticos. A regra democrática deveria valer para todos.
Parte do eleitorado ainda se ilude com a ideia de uma terceira via apresentada por setores neoliberais que, em diferentes momentos, foram coniventes com ataques à democracia ou se envolveram em controvérsias políticas. Também é necessário avaliar as consequências de políticas internacionais, como o tarifaço de Donald Trump, capazes de prejudicar inclusive setores da própria burguesia.
Se aplicássemos o princípio de realidade a uma espécie de “planilha comparativa”, confrontando propostas, resultados, interesses de classe e consequências concretas de cada projeto político, talvez pudéssemos retomar avanços democráticos e construir um ambiente de menor polarização destrutiva, capaz de favorecer uma sociedade mais humana.
A falta de lucidez é um fenômeno macro e se expressa também no que observamos entre muitos dos entrevistados e candidatos à Presidência. Seria fundamental, ainda, analisar a dimensão ambiental das políticas econômicas e das forças produtivas no Brasil. A destruição ambiental não pode ser dissociada de projetos orientados prioritariamente pela ampliação dos lucros, muitas vezes em detrimento das necessidades coletivas e da preservação dos recursos naturais.
Quem se ilude com uma “mágica terceira via” deveria perceber que uma alternativa já pode estar em curso — não necessariamente no neoliberalismo nem em uma perspectiva estritamente keynesiana, de um Estado apenas controlador, mas na construção e no aprofundamento de um Estado de bem-estar social que, gradualmente, socialize recursos e oportunidades fundamentais para atender às necessidades e aos desejos da maioria da população.
A psicanálise nos ensina que não há sujeito completamente apartado do social. Da mesma forma, a ética do desejo, no sentido lacaniano de não ceder sobre aquilo que verdadeiramente nos move, não pode se sustentar apenas no imaginário. Precisamos esclarecer nossos sonhos simbolicamente e confrontá-los com o princípio de realidade.
Isso significa também tentar reduzir o avanço da pulsão de morte presente em nossas escolhas coletivas e individuais — tanto naquilo que estabelecemos como metas pessoais quanto nos projetos que construímos para a sociedade. Essa reflexão torna-se ainda mais necessária em um ano marcado por eleições decisivas.
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