Depois do calote, outra aposta: o Grêmio não aprendeu nada?

O Grêmio levou um calote de uma casa de apostas e encontrou uma solução extraordinariamente criativa: fechar com outra. Muda o nome do anunciante, troca-se a arte da divulgação e espera-se que o torcedor receba a novidade com entusiasmo e memória curta.

O problema é que a memória existe. E a conta também.

A experiência com a Alfa Bet deixou parcelas sem pagamento, rompimento contratual e cobrança judicial. Nem o acordo posterior para quitar R$ 12 milhões começou como deveria: a antiga patrocinadora descumpriu o primeiro pagamento, conforme noticiado pelo Correio do Povo. Foi uma lição cara sobre a distância entre o dinheiro anunciado e o dinheiro recebido.

A atual direção herdou esse histórico. Não precisa responder pela assinatura de todos os contratos anteriores, mas responde integralmente pelas escolhas que faz depois de conhecer seus resultados. Herdar um problema é uma circunstância. Ignorar a lição é uma decisão.

Com a chegada da Pitaco, a torcida tem o direito de saber quais garantias protegem o clube, que avaliação financeira foi realizada e quais critérios determinaram a escolha. Se a negociação é motivo de orgulho, explicar suas salvaguardas deveria ser a parte mais fácil.

Fotografia de assinatura não serve como garantia bancária. E adjetivo em comunicado não paga boleto.

Há, porém, uma questão ainda mais incômoda do que a segurança financeira do contrato: o Grêmio continua oferecendo sua credibilidade a um setor associado a endividamento, dependência e sofrimento familiar. O próprio Ministério da Saúde mantém uma campanha que alerta para esses danos e orienta pessoas a buscar atendimento.

Nesse ambiente, o futebol empresta às apostas algo que nenhuma campanha publicitária consegue fabricar sozinha: pertencimento. A marca aparece junto do escudo amado, veste os ídolos e entra na rotina da família. O clube recebe pela exposição. O torcedor recebe o convite.

É uma forma bastante conveniente de fazer negócios com a paixão alheia.

Dirigentes adoram dizer que a torcida é o maior patrimônio do clube. Seria interessante demonstrar esse respeito também quando ela representa uma oportunidade comercial para uma casa de apostas. O carinho pelo torcedor não pode acabar exatamente onde começa a proposta do patrocinador.

E a escolha da Pitaco merece perguntas específicas.

Há reclamações públicas sobre bloqueios de contas, retenção de valores e limitações de apostas. Em respostas encontradas, a empresa sustenta que adota critérios técnicos, contratuais e de segurança, negando falhas. Em um dos casos de alegada retenção, afirmou ter devolvido integralmente o saldo disponível por Pix. Os relatos não comprovam fraude, mas justificam perguntar o que a direção examinou antes de associar a marca gremista à plataforma.

Há números que tornam essa cobrança bastante concreta. Na consulta de 23 de setembro de 2026, a página da Pitaco no Reclame Aqui reunia 5.280 reclamações publicadas. Esse total histórico não significa 5.280 casos sem solução. No período de março a agosto de 2026, foram 727 reclamações recebidas, com índice de solução de 68,2% e nota média dos consumidores de 6,1. A empresa respondeu a todas as reclamações daquele recorte e apresentava reputação geral considerada boa, de 7,2.

Responder às reclamações é positivo. Resolver os problemas é o que interessa ao consumidor.

Entre os registros recentes, um consumidor relatou, em 22 de setembro, que sua aposta foi liquidada, o dinheiro disponibilizado e o saque concluído. Depois, segundo a reclamação, seleções antes identificadas como anuladas voltaram a valer, o bilhete foi convertido em perdido e surgiu saldo negativo na conta. O registro ainda estava sem resposta na consulta, e a sequência narrada depende de verificação documental. É uma alegação específica sobre alteração de resultado financeiro que merece esclarecimento.

A direção examinou esses registros? Pediu explicações sobre os procedimentos de pagamento, revisão de apostas e atendimento? Avaliou o risco de emprestar o escudo a uma plataforma que enfrenta esse tipo de contestação?

Depois da experiência com a Alfa, o torcedor tem todo o direito de exigir respostas. Seria constrangedor descobrir que a apresentação comercial recebeu mais atenção do que o histórico da empresa. O Grêmio já pagou caro por uma promessa de patrocínio. A atual gestão precisa demonstrar que aprendeu alguma coisa além de trocar a logomarca.

Também existe uma disputa judicial envolvendo a origem do negócio. Michel Rozenberg Zelazny reivindica participação no projeto e acusa o cofundador Mateus Dantas de excluí-lo. Dantas nega as alegações. A existência da ação está confirmada no TJSP; não foi identificada, neste levantamento, uma sentença de mérito que permita tratar a acusação como verdade estabelecida.

A Pitaco possui autorização federal para operar. Esse dado deve ser respeitado. Mas licença regulatória não substitui o dever de uma direção de avaliar riscos comerciais e reputacionais. O mínimo exigido pelo poder público não precisa ser o limite da exigência de um clube do tamanho do Grêmio.

Depois da Alfa, seria razoável esperar uma gestão especialmente criteriosa, capaz de demonstrar por que o novo acordo merece confiança. A torcida não tem obrigação de fornecer um cheque em branco emocional cada vez que alguém aparece com uma promessa de receita.

O clube precisa de dinheiro. Isso é evidente. Justamente por precisar, deveria tratar cada contrato com uma seriedade proporcional à sua vulnerabilidade. Aperto financeiro explica urgência; não transforma qualquer escolha em competência.

A crítica à atual gestão é essa: voltar ao mercado das bets exige muito mais do que celebrar a ocupação de um espaço na camisa. Exige prestar contas sobre garantias, reputação e responsabilidade com quem sustenta o clube.

O Grêmio já conhece o custo de acreditar em dinheiro que só existia no anúncio.

Se a direção quer aplausos pela nova parceria, que apresente razões para merecê-los. A camisa tem preço publicitário. A confiança da torcida não deveria entrar de brinde.

Por enquanto, o nome da patrocinadora oferece a ironia pronta: a direção anuncia um acerto. Sem demonstrar as garantias, fica parecendo apenas um pitaco.

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