As convicções e as dúvidas, no voto e em análise

As convicções e as dúvidas balizam nossas escolhas em tudo: na hora do voto e nas relações pessoais e sociais. Essas reflexões, com a psicanálise em extensão, podem ajudar a pensar também nossa ética humana e nossa saúde mental.

No processo eleitoral, a aposta no exercício democrático segue, historicamente, como a melhor alternativa para exercitarmos o debate de ideias, de avanços e retrocessos, mesmo diante do risco de a própria democracia ser comprometida.

Na busca dessa proposição, mesmo a discussão que favoreça uma mudança de posição traz embates até entre pares. Fui questionado sobre a importância de focarmos em pontos relevantes dos nossos avanços com a continuidade de Lula na Presidência, e me disseram que não há virada de voto.

Ponderei que, se isso fosse absoluto, não haveria alternâncias de poder. Justamente por isso, essa campanha se dirige também aos muitos que têm dúvidas, que votam nulo ou que embarcam numa “terceira via”, a da burguesia se opondo entre si. Esses querem anistia a Bolsonaro e aos demais que idealizaram e atuaram no golpe de 08 de janeiro. Tampouco defendem a redução da jornada de trabalho 6/1, o aumento de impostos dos mais ricos e nossa soberania, por exemplo.

Se o princípio de realidade e um pouquinho de método científico operassem, pessoas realmente de bem poderiam fazer o que sugiro: usar o “falseamento”. Que tomem como falsa a proposição e investiguem, buscando provar que o Brasil ficou pior com Lula. Com uma tabelinha de Excel comparativa com o que vivemos com Bolsonaro, aí, sim, a escolha seria pelo que é melhor em todas as áreas.

Os ignorantes, golpistas e convictos defensores de seus privilégios, em detrimento dos avanços sociais, usam sofismas como: “Bolsa Família acomoda preguiçoso que não quer trabalhar!”.

A propósito, nada mais eleitoreiro do que querer que avanços sociais como esse parem! E, quando perguntamos como o desemprego diminuiu, ficam quietos ou repetem o mantra herdado da Lava Jato, de “convicções sem provas”: “Luladrão!”.

Um exemplo de blindagem da lucidez ocorre quando o aumento da violência é colocado na conta de Lula, sem considerar a herança armamentista dos bandidos, com a semiologia subjetivadora, como modelo nazista, das “mãos em arminha na campanha” e de miliciano condecorado.

Como pode alguém achar que “Rachadinha” é inocente ao pedir R$ 134 milhões a Vorcaro, do Banco Master, para o filme Dark House do papai? Além de ser associado ao Careca do INSS. Lembro que Flávio cometeu um lapso, que não escapa ao ouvido de analista, em entrevista à Globo, dizendo: “Era verba para o filho (filme) do próprio pai” — filho: ele e Eduardo, com vida de milionário nos EUA.

Quanto à blindagem, é evidente que o ministro Mendonça, o “terrivelmente evangélico”, grato por ser cria de Bolsonaro, quis desviar o foco do filhote evidentemente comprometido — sem convicções, mas com provas — com Vorcaro, o “Master” da roubalheira. Então, a falta de pulso de Fachin e as desculpas de Cármen Lúcia não me comoveram. Embora eu desejasse um julgamento conjunto, sem poupar Alexandre nem ninguém, como diz Lula, creio que a vista — no sentido conotativo e denotativo — de Dino foi um mal menor, devido ao exíguo tempo que permitiria mais vitrine favorável a Flávio, “Rachadinha”, Bolsonaro. E Fachin, como esperado, adia o julgamento de Mendonça. Por que somente depois de o de Moraes ter sido adiado por Dino?

Na perspectiva estruturalista da psicanálise, e evitando a análise selvagem, podemos interrogar o que ocorre quando determinadas convicções se tornam impermeáveis à dúvida e até mesmo às evidências. Mais do que diagnosticar quem pensa diferente, interessa compreender os mecanismos subjetivos que sustentam certezas e resistências. O benefício da dúvida, nesse sentido, pode abrir espaço à reflexão. No exercício democrático do voto, contudo, essa dúvida também precisa confrontar fatos, consequências e os riscos de retrocessos.

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