Em ano eleitoral, é comum que episódios de governos anteriores voltem ao centro do debate público. Alguns, porém, merecem ser revisitados não apenas pela disputa política, mas pelas perguntas que continuam sem respostas.
É nesse contexto que o caso de Luís Felipe Benke dos Santos, uma criança de apenas 8 anos que enfrentava um câncer em estágio terminal e estava em tratamento em Portugal, volta a provocar reflexão sobre o papel do Estado diante de situações extremas.
A criança precisava retornar ao Brasil. Segundo informações divulgadas à época, a família e o Governo de Santa Catarina teriam buscado apoio do governo federal e da Força Aérea Brasileira (FAB) para viabilizar o transporte.
O voo não teria sido realizado. Posteriormente, o retorno ao país ocorreu em uma aeronave comercial, com suporte médico, e os custos teriam sido assumidos por um empresário catarinense.
O episódio levanta uma questão difícil de ignorar: por que uma família que enfrentava uma situação tão delicada precisou recorrer à iniciativa privada para viabilizar o retorno de uma criança em estado terminal?
A discussão, entretanto, precisa ir além da disputa entre partidos e governos.
Não se trata simplesmente de escolher um lado político. Trata-se de discutir responsabilidade pública, capacidade de resposta e transparência institucional.
Quando uma família procura o poder público diante de uma emergência dessa dimensão, é legítimo perguntar quais providências foram adotadas. Quem recebeu a solicitação? Quais critérios foram considerados? Que alternativas foram analisadas? Por que uma aeronave não foi disponibilizada, caso realmente tenha havido essa solicitação e essa possibilidade?
Essas respostas são importantes porque decisões administrativas tomadas em situações excepcionais precisam ser compreendidas pela sociedade.
Quando a burocracia encontra a emergência
Um Estado eficiente não pode ser avaliado apenas pela capacidade de funcionar quando tudo ocorre dentro da normalidade.
É justamente diante de situações extremas que as instituições públicas são colocadas à prova.
Uma criança de 8 anos, enfrentando uma doença grave e em estágio terminal, não deveria ser reduzida a um número de protocolo ou ficar no meio de uma disputa burocrática. Independentemente de quem estivesse no governo, a prioridade deveria ser analisar, com rapidez e humanidade, todas as alternativas legal e tecnicamente possíveis.
Isso não significa afirmar, sem apuração oficial, que o poder público poderia necessariamente ter realizado o transporte ou que houve uma ilegalidade. Significa reconhecer que existem perguntas legítimas que precisam de respostas documentadas.
Em casos dessa natureza, transparência não é favor. É dever público.
A pergunta que permanece
O debate político pode mudar conforme o calendário eleitoral, os governos e os partidos que ocupam o poder. A situação vivida por uma família, porém, não cabe em uma campanha eleitoral.
Por isso, mais importante do que saber quem ganhou ou perdeu politicamente é enfrentar uma pergunta objetiva:
Diante de uma criança lutando contra uma doença grave, o Estado fez tudo o que poderia ter feito?
Se a resposta for sim, a sociedade merece conhecer as providências adotadas e os critérios que levaram às decisões.
Se a resposta for não, também é necessário explicar por quê?
Porque, em situações em que a vida está no limite, a eficiência do Estado deixa de ser apenas uma questão administrativa. Torna-se uma questão de humanidade e responsabilidade pública.
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