Venezuela começa o ano com o pé direito: Maduro cai, o povo respira e o Brasil paga o mico

Nicolás Maduro foi capturado por forças americanas durante uma operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, anunciou o presidente Donald Trump na madrugada deste sábado. Segundo a versão apresentada por Washington, Maduro e a esposa, Cilia Flores, foram detidos e retirados do país; a Casa Branca prometeu detalhar a ação em coletiva.

Sim: o método pode ser moralmente questionável. Não há como dourar a pílula. Soberania não é adereço, e intervenções não são filantropia. Washington não acordou subitamente sensível à dor latino-americana. Trump não entrou em cena por altruísmo. A geopolítica não tem coração; tem interesse. E o interesse é velho, direto e com cheiro de barril: petróleo, influência, controle de rotas e um recado ao tabuleiro do século XXI — onde China e Rússia disputam cada centímetro de poder.

Ainda assim, aqui está o ponto que incomoda os puristas de gabinete: há momentos em que a História não pede permissão. Ela atropela. E, quando atropela um regime que transformou a Venezuela em refém — de um aparato político-militar, de uma economia implodida e de uma máquina de perseguição —, o povo não vai parar para discutir etiqueta diplomática com fome no prato e medo na porta.

A Venezuela, há muito, não era apenas um país sob governo ruim: era um país capturado. Um Estado que se comportava como propriedade privada de um projeto autoritário. A oposição tratada como inimiga interna. A eleição como ritual sem credibilidade. A violência convertida em método. A pobreza, em rotina. Milhões de venezuelanos espalhados pelo mundo não saíram por turismo: saíram porque foram expulsos.

Quando um regime assim cai, nasce uma chance — e não uma garantia. Chance de reconstruir instituições, reabrir a economia para quem trabalha de verdade, devolver previsibilidade, anistiar a esperança. Chance de transformar o “não dá mais” em “agora vai”.

Mas não sejamos ingênuos: a liberdade virá com uma fatura. E quem vai tentar cobrar primeiro é quem derrubou a porta.

Trump quer petróleo. Quer mandar no fluxo, na precificação, na exportação, na vitrine. Quer uma Venezuela “funcional” sob nova direção — de preferência alinhada, disciplinada e útil. O discurso pode vir embalado em “combate ao narcoterrorismo”, em “restauração da ordem”, em “defesa da democracia”. Só que o mundo adulto sabe ler a legenda por trás da imagem: petróleo é poder, e poder raramente é emprestado; é exercido.

A diferença, para o venezuelano comum, é brutal: entre ser explorado por interesses externos com Estado funcionando e ser esmagado por um regime interno com Estado falido, a prioridade vira sobrevivência. Nenhum povo merece escolher entre a humilhação e o cativeiro. Mas, quando o cativeiro cai, abre-se um corredor — estreito, perigoso, mas real — para a reconstrução.

E o Brasil? O Brasil sai menor. Sai derrotado em narrativa, em relevância e em resultado.

Prometeu liderança regional. Vendeu-se como mediador. Fez pose de “adulto na sala” do Sul Global. Mas, quando a hora apertou, entregou o quê? Ambiguidade. Silêncio conveniente. Uma diplomacia que confundiu prudência com omissão e princípio com compadrio.

Nos momentos mais críticos, o Brasil escolheu relativizar. Tratou Maduro como interlocutor legítimo quando o próprio povo venezuelano gritava o contrário — e quando o mundo já entendia que aquilo não era “projeto político”, era máquina de perpetuação. Resultado: caiu Maduro, caiu o chavismo e caiu, junto, a fábula do Brasil como grande bússola moral e estratégica da América do Sul.

O país que diz querer ser líder não pode aparecer sempre atrasado, sempre em cima do muro, sempre pedindo “calma” para quem está sendo asfixiado. Liderança exige coragem — e coragem, às vezes, exige desagradar. O Brasil preferiu o conforto do discurso e o aplauso do próprio círculo. E o mundo anotou.

A Venezuela, ao contrário, tem agora uma chance de reescrever o próprio destino. E aqui é onde entra a esperança, sem romantizar.

Esperança não é acreditar que tudo será lindo amanhã. Esperança é entender que, com o regime fora do caminho, existe espaço para reconstruir o que foi destruído: instituições, confiança, moeda, trabalho, segurança, escola, hospital, futuro. Existe espaço para os exilados voltarem. Para a economia respirar. Para o medo deixar de ser política pública.

O que vem pela frente exige maturidade venezuelana e vigilância do mundo: transição com regras, não com vingança; justiça, não caça às bruxas; eleições verificáveis, não encenação; abertura econômica com proteção social real, não populismo. Se a Venezuela fizer isso, não será apenas “um país que caiu nas mãos do interesse americano”. Será um país que retomou as rédeas da própria história.

Hoje, a manchete é dura. O bastidor é cínico. A moral é complexa. Mas o fato — se confirmado — é simples: um povo que foi espremido por anos ganhou uma janela. Que ela não se feche.

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Wagner Andrade
Wagner Andradehttps://realnews.com.br/
Eu falo o que não querem ouvir. Política, futebol e intensidade. Se é pra sentir, segue. Se é pra fugir, cala.
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