Uma vitória para as contas. Um gol para a alma

Classificação às quartas de final da Copa do Brasil rende cerca de R$ 4 milhões ao Grêmio, dá sobrevida ao trabalho de Luís Castro e transforma Cristian Pavón no símbolo de uma noite marcada pela resiliência e pela esperança.

Um gol que valeu a classificação e cerca de R$ 4 milhões nos cofres do clube. Mais do que o alívio financeiro, a vaga do Grêmio nas quartas de final da Copa do Brasil garantiu sobrevida ao trabalho de Luís Castro e encerrou um tabu que já incomodava o torcedor.

Pela primeira vez na história, o Tricolor venceu o Mirassol. Até então, o retrospecto era indigesto: seis confrontos, quatro derrotas e um empate. Depois do 1 a 1 no jogo de ida, a missão na Arena era clara: vencer, amenizar a crise e aliviar a pressão que pairava sobre elenco e comissão técnica.

O personagem da noite foi justamente quem poucos imaginavam. Cristian Pavón marcou, aos 37 minutos do primeiro tempo, um belo gol de falta, batendo por fora da barreira e sem chances para Alex Muralha.

Foi muito mais do que um gol.

Pavón vinha atravessando um dos momentos mais difíceis desde que chegou ao Grêmio. Foram meses de críticas, vaias e pedidos constantes por sua saída — confesso que eu também fazia parte desse grupo. Seus erros técnicos eram frequentes e incompatíveis com o nível esperado de um jogador do seu currículo.

Mas há algo que merece reconhecimento: a sua resiliência.

Em nenhum momento o argentino se escondeu. Aceitou as críticas, continuou trabalhando e, muitas vezes, precisou atuar improvisado na lateral direita. Passou mais de um ano sem marcar um gol, mas nunca deixou faltar entrega, intensidade e disposição para competir.

O futebol costuma reservar esses roteiros improváveis. Coube justamente a Pavón marcar, até aqui, o gol mais importante da temporada gremista. Um gol que recoloca o clube nas quartas de final e dá fôlego ao trabalho de Luís Castro apenas uma semana depois da frustrante eliminação diante do Bolívar.

Luzes e sombras

A atuação do Grêmio esteve longe de ser brilhante, mas foi suficiente.

Depois de um início inseguro, a equipe conseguiu controlar as ações no primeiro tempo, valorizando a posse de bola e pressionando o Mirassol. O problema voltou a aparecer na etapa final. Após os 20 minutos, o time recuou excessivamente, abriu mão de atacar e convidou o adversário para jogar. Sofreu uma pressão desnecessária e flertou novamente com o desastre.

Ainda assim, alguns destaques individuais merecem registro.

Wallace: mostrou personalidade em apenas sua segunda partida pelo clube. Seguro e simples nas decisões, dá sinais de que pode disputar espaço entre os titulares.

Marlon: fez sua melhor atuação desde o retorno da lesão. Foi consistente na marcação e voltou a oferecer profundidade pelo lado esquerdo.

Villasanti: recuperado de lesão, mudou a dinâmica do meio-campo. Sua mobilidade trouxe equilíbrio ao setor e potencializou o rendimento de Nardoni e Noriega.

Diego Caito: merece uma observação especial. Talvez não seja um jogador de brilho individual, mas é um lateral de origem. E isso, por si só, já resolveu parte de um problema que o Grêmio carregava há anos. Sua presença trouxe encaixe tático, equilíbrio defensivo e naturalidade ao setor.

O próximo passo

Seria precipitado afirmar que a crise ficou para trás. Ela continua presente. No entanto, a classificação oferece algo que o Grêmio vinha perdendo nas últimas semanas: esperança.

As pequenas evoluções individuais e coletivas permitem acreditar que a equipe pode reagir também no Campeonato Brasileiro e deixar a incômoda parte de baixo da tabela.

Agora, esse voto de confiança precisa ser confirmado dentro de campo. O duelo contra o São Paulo, no sábado, será mais do que uma partida por três pontos. Será a oportunidade de transformar uma classificação importante no início de uma verdadeira recuperação.

Porque, no futebol, uma vitória pode aliviar as contas. Mas só uma sequência de bons resultados devolve a paz.

Foto: Maxi Franzoi

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Gustavo Guedes
Gustavo Guedeshttps://realnews.com.br/
Jornalista/cronista esportivo

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