O sigilo é a alma do negócio e o Lula aprendeu rápido

Há uma cena que resume com precisão quase cirúrgica o estado moral da República brasileira. Um jornal respeitável, o Estadão, faz um pedido via Lei de Acesso à Informação sobre a autorização concedida pelo governo Lula a uma casa de apostas de origem russa, a 1xBet, empresa banida em vários países civilizados e que, ao que tudo indica, operava ilegalmente no Brasil antes de receber o carimbo oficial de benemerência petista. O Ministério da Fazenda nega o acesso. O jornal, numa demonstração de razoabilidade que beira o masoquismo, pede ao menos que as partes sigilosas sejam tarjadas. A Fazenda nega de novo e, com a cara de pau que só a burocracia pátria sabe cultivar, alega que analisar cada documento exigiria “um esforço administrativo desproporcional”, além de uma “severa restrição de força de trabalho”.

Força de trabalho. No governo que nunca cansou de contratar, nomear, empossar e aparelhar. Mas para tarjar uns documentos sobre uma bet russa — ah, isso é demais para o funcionalismo.

O sigilo? Cem anos.

A PICARETAGEM QUE SE REPETE

Vamos combinar uma coisa: qualquer pessoa com memória funcional acima de um tronco de aroeira se lembra de que o senhor Luiz Inácio Lula da Silva, durante a campanha de 2022, incendiou palanques Brasil afora atacando o uso e o abuso do sigilo centenário por Jair Bolsonaro. Com razão, aliás. Bolsonaro, naquele seu talento ímpar para o ridículo institucional, havia classificado como segredo de Estado coisas como o cartão de vacinação, as visitas ao Palácio da Alvorada, o acesso dos filhos ao Planalto, as reuniões com pastores negociando verbas do MEC e a “obra-prima” da vigarice, os gastos dos cartões corporativos da Presidência.

Tudo sigilo. Tudo por cem anos. Tudo protegido pela mesma lógica medieval de que o soberano não precisa satisfações ao povo.

Lula chegou ao poder, revogou alguns desses sigilos bolsonaristas com o frisson de quem descobre que a virtude compensa eleitoralmente e, passou a fazer exatamente a mesma coisa. A agenda de Janja, a amada da nação (ao menos da nação petista), cem anos de sigilo. A lista dos integrantes do Batalhão de Guarda Presidencial que estavam de plantão no 8 de janeiro de 2023, cem anos. E agora, o processo de liberação de uma bet russa com endereço duvidoso na Receita Federal, cem anos.

Se isso não é farinha do mesmo saco, então a língua portuguesa precisa ser reformulada.

O NEGÓCIO DAS BETS E O DINHEIRO DOS POBRES

Convém não perder de vista o que está em jogo aqui. Não estamos falando de uma discussão técnica sobre regulação financeira. Estamos falando de apostas esportivas, esse mecanismo de redistribuição de renda que funciona sempre no mesmo sentido: do bolso do trabalhador para o caixa da empresa. Um dispositivo construído com toda a engenharia psicológica disponível para explorar o sonho dos que têm menos.

A 1xBet, especificamente, não é uma empresa qualquer. É russa, o que, no contexto atual do planeta, já exige uma nota explicativa sobre o DNA moral do empreendimento. Estava banida em vários países. Operava ilegalmente no Brasil. E recebeu autorização do governo Lula em junho do ano passado, num processo que agora tem selos de cem anos.

Pergunto: quem o governo está protegendo? Os “dados pessoais de sócios e administradores”? Com que delicadeza. Que solicitude tocante para com os empresários russos.

A CGU E O TEATRO DA TRANSPARÊNCIA

A Controladoria-Geral da União tem sido pródiga em comunicados afirmando que o governo Lula é o epítome da transparência republicana. A CGU argumenta que as negativas ocorrem apenas quando há necessidade de proteger dados pessoais sensíveis. Informa, inclusive, que está desenvolvendo uma ferramenta de inteligência artificial para tarjar documentos, o que, convenhamos, seria mais crível se o próprio governo não usasse a ausência dessa ferramenta como desculpa para não mostrar nada enquanto ela não fica pronta.

É uma circularidade admirável. Não mostro porque dá trabalho. Estou construindo algo para facilitar o trabalho. Mas enquanto não fica pronto, não mostro.

Kafka teria inveja.

O LEGADO DE DELÚBIO

Encerro com uma nota de sabedoria nacional. Delúbio Soares — o tesoureiro do PT que administrou o Mensalão com a discrição de quem paga propina em parcelas, que agora deseja honrar o Congresso Nacional com sua presença — deixou para a posteridade uma frase que ilumina a filosofia de governo que atravessa décadas e partidos no Brasil: “Transparência demais é burrice.”

Pois bem. O governo Lula parece ter feito dessa máxima um princípio constitucional não escrito.

E o povo que paga as apostas, paga os impostos e paga o silêncio — esse não tem direito a cem anos de nada. Tem apenas a conta.

 

Foto:Horacio Villalobos/Getty Images

spot_img
Wagner Andrade
Wagner Andradehttps://realnews.com.br/
Eu falo o que não querem ouvir. Política, futebol e intensidade. Se é pra sentir, segue. Se é pra fugir, cala.

Publicidade

Publicidade

- Conteúdo Pago -spot_img

Publicidade