Rick Rescorla: o militar que alertou sobre ataque às Torres Gêmeas e salvou milhares de pessoas

Vinte e cinco anos depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, a história de Rick Rescorla continua sendo lembrada como um dos exemplos mais marcantes de atuação diante de uma tragédia. O militar, que trabalhava na segurança da empresa Morgan Stanley, ajudou a retirar milhares de pessoas da Torre Sul do World Trade Center e morreu enquanto retornava ao prédio para procurar quem ainda estivesse no local.

Rescorla tinha 62 anos quando os atentados aconteceram. Nascido no Reino Unido, serviu no Exército britânico e posteriormente ingressou nas Forças Armadas dos Estados Unidos. Na década de 1960, participou da Guerra do Vietnã, onde comandou um batalhão norte-americano e ganhou o apelido de “Hard Core”, associado à sua postura considerada rígida na liderança das tropas.

Depois de deixar a carreira militar, iniciou estudos de Direito, mas acabou abandonando a universidade para trabalhar na área de segurança da Dean Witter, corretora que mantinha escritórios no World Trade Center. A empresa posteriormente se fundiu com a Morgan Stanley.

Foi nesse período que Rescorla passou a dedicar atenção especial à segurança do complexo empresarial.

O alerta antes do 11 de Setembro

As preocupações aumentaram depois de um atentado ocorrido em 1993, quando um caminhão-bomba explodiu no subsolo do World Trade Center e deixou mais de mil pessoas feridas.

Para Rescorla, o episódio demonstrava que as torres poderiam voltar a ser alvo de uma ação terrorista. Antes disso, outro acontecimento havia chamado sua atenção: em 1988, um avião da Pan Am explodiu durante o voo após uma bomba ser detonada dentro da aeronave. O destino do voo era Nova York.

Segundo reportagem da revista The New Yorker, Rescorla chegou a alertar, ainda na década de 1990, que a permanência da Morgan Stanley no World Trade Center poderia representar um risco.

Entre os cenários considerados pelo militar estava justamente a possibilidade de um avião ser usado em um ataque contra uma das torres. A hipótese envolvia uma aeronave vinda do Oriente Médio ou da Europa, que poderia carregar explosivos ou agentes químicos ou biológicos.

A Morgan Stanley, entretanto, decidiu permanecer no complexo. Uma mudança de sede representaria um custo elevado, e o contrato de aluguel da Torre Sul tinha validade até 2006.

Rescorla então concentrou esforços naquilo que poderia controlar: preparar os funcionários para uma eventual emergência.

Treinamentos ajudaram na retirada dos funcionários

Pelo menos duas vezes por ano, o militar promovia exercícios de evacuação com os trabalhadores da empresa. O objetivo era fazer com que a saída ocorresse rapidamente e de maneira organizada.

Durante os treinamentos, Rescorla utilizava o sistema de comunicação interno para ordenar a retirada. Os funcionários deixavam seus postos gradualmente, em duplas, como forma de evitar congestionamentos nas escadas de emergência.

A insistência do responsável pela segurança chegou a provocar resistência e até brincadeiras entre alguns trabalhadores. Mesmo assim, ele manteve o protocolo.

A preparação seria decisiva oito anos depois.

11 de setembro de 2001

Na manhã de 11 de setembro de 2001, a Morgan Stanley ocupava 22 andares da Torre Sul. Rescorla estava em seu escritório quando o primeiro avião atingiu a Torre Norte, às 8h46.

Diante da explosão, ele imediatamente colocou em prática o plano de evacuação que havia treinado durante anos.

A orientação da administração do World Trade Center era que os trabalhadores da Torre Sul permanecessem em seus locais, já que o prédio não havia sido atingido. Rescorla decidiu ignorar a determinação.

Segundo relato de Dan Hill publicado pela The New Yorker em 2002, o militar teria afirmado:

“Tudo acima do ponto onde aquele avião atingiu vai desabar, e vai levar o prédio inteiro com ele. Vou tirar essa gente daqui.”

Enquanto a retirada dos funcionários ainda acontecia, um segundo avião atingiu a Torre Sul, menos de 20 minutos depois do primeiro impacto.

O ataque confirmou o pior cenário imaginado por Rescorla. Mesmo assim, ele continuou coordenando a evacuação.

Rescorla voltou para procurar quem ainda estava no prédio

De acordo com o Exército dos Estados Unidos, a atuação do militar contribuiu para salvar 2.687 pessoas.

Depois de ajudar na retirada dos trabalhadores, Rescorla voltou a subir pelas escadas do World Trade Center para verificar se ainda havia funcionários da Morgan Stanley no interior do prédio.

Ele foi visto pela última vez realizando essa busca.

Segundo informações do Memorial do 11 de Setembro, Rescorla e outros 12 funcionários não conseguiram sair antes do colapso da Torre Sul.

Pouco antes da queda do edifício, ele teria dito a um colega que permaneceria no local até ter certeza de que todos os demais haviam conseguido escapar.

O militar também telefonou para a esposa naquele momento. Segundo o Exército norte-americano, disse que precisava continuar trabalhando para retirar as pessoas com segurança e declarou o quanto estava feliz ao lado dela.

Rescorla foi oficialmente declarado morto três semanas depois dos atentados. Seus restos mortais nunca foram encontrados.

Um legado associado à prevenção

A história de Rick Rescorla ganhou destaque justamente porque sua preocupação com a segurança do World Trade Center antecedeu os ataques de 2001.

Ele não poderia saber quando ou como ocorreria um novo atentado, mas considerou a possibilidade de um ataque aéreo e insistiu durante anos em preparar os funcionários para uma evacuação.

No dia em que as Torres Gêmeas foram atingidas, a decisão de iniciar a retirada mesmo contrariando a orientação inicial da administração do complexo foi fundamental para que milhares de pessoas deixassem a Torre Sul antes de seu desabamento.

Por isso, Rescorla passou a ser lembrado como um dos heróis do 11 de Setembro. Mais do que uma suposta “premonição”, sua história é marcada pela capacidade de identificar riscos, insistir na prevenção e agir rapidamente quando o cenário imaginado se tornou realidade.

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Leilane Beck
Leilane Beckhttp://realnews.com.br
Entre a ficção e a realidade, meu compromisso é traduzir o tempo em palavras com sensibilidade, crítica e verdade.

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