A Inteligência Artificial já faz parte do nosso cotidiano — seja nas redes sociais, na produção de conteúdos diversos, em pesquisas ou em revisões de texto. Chatbots como o ChatGPT, Gemini, Meta AI, Copilot, entre outros, vêm popularizando o uso dessa linguagem. No entanto, enquanto instrumento tecnológico, a IA precisa ser submetida ao crivo de uma ética que promova a verdade, o bem-estar social, cognitivo e emocional.
Ao ler este artigo, você já estará sendo beneficiado pela IA, que nos proporciona mais fluência e estilo, além de desafiar nossos conceitos, inclusive no campo jornalístico. Ainda assim, isso não exime a mim — e ao meu editor, Wagner Andrade — da responsabilidade de trazer o olhar humano, aquele que irá filtrar o conteúdo, aprimorá-lo e, sobretudo, preservar os conceitos essenciais de nossos referenciais autorais.
Em diálogo com o campo jurídico, percebe-se que a IA traz benefícios, como a agilização na elaboração de peças processuais — desde que sob o crivo de fundamentos próprios. Como escritor, rejeito totalmente os chamados “projetos editoriais” nos quais o “autor” apenas indica um tema e deixa a IA desenvolver todo o conteúdo. Isso não é autoria!
Essa discussão também chega ao campo legislativo, com a nova legislação eleitoral em pauta, que visa coibir abusos envolvendo manipulação de imagem, vozes e conteúdos que possam prejudicar candidaturas por meio da IA. Esse debate é essencial para superarmos os impactos de um processo de subjetivação baseado em fake news — um processo que, entre outras consequências, elegeu Jair Bolsonaro, indiciado por tentativa de golpe antidemocrático, e cujas estratégias enganosas resultaram em discriminações, retrocessos sociais, ambientais, econômicos e contribuíram para a injusta condenação de Lula.
Mesmo sem pesquisas conclusivas sobre os impactos da IA no campo psicológico, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) já se posiciona: recomenda que os Conselhos Regionais promovam debates com a sociedade civil sobre o uso ético e responsável da Inteligência Artificial, envolvendo também diálogos intersetoriais, interinstitucionais e transdisciplinares — sempre respeitando as singularidades subjetivas, sociais e culturais do nosso país.
Na área da psicologia clínica, seria um equívoco grave atribuir à IA qualquer benefício terapêutico. O vínculo — ou “transferência”, como nomeia a psicanálise — entre profissional e paciente (analisando, na psicanálise) é construído a partir da intersubjetividade humana. Na psicanálise lacaniana, por exemplo, falamos do “amor de transferência” e da “suposição de saber” no analista para que o processo ocorra de fato. Imaginar que esse processo possa ser mediado por uma IA é um delírio.
A integração de recursos de edição e animação por IA nos insere em um mundo virtual quase surreal. A naturalização desse universo — sem uma ética, sem discernimento simbólico — pode ser extremamente prejudicial ao desenvolvimento cognitivo e emocional. Essas dimensões preciosas da experiência humana não podem ser entregues livremente às big techs.
O imaginário é parte fundamental dos primeiros anos do desenvolvimento humano. A construção do juízo moral passa pelo crivo da razão e não pode ser confundida com conteúdos irreais — a menos que estejam explicitamente marcados como tal. Na teoria psicanalítica, a chamada “pulsão de saber” nasce no imaginário, com as investigações sexuais infantis e perguntas como: “De onde vêm os bebês?”. A “cegonha”, nesse caso, tem seus dias contados, porque a realidade precisa ocupar esse espaço — sem artifícios e sem sexualização precoce.
A rapidez de um algoritmo, por mais impressionante que seja, é apenas uma ferramenta indutiva. Ela não é capaz de atender às demandas profundas do desejo humano, que exigem escuta — uma escuta humana, empática, viva.
A psicoterapia, mesmo a de orientação analítica, pode acontecer online. Mas isso exige tempo de narrativa, construção de vínculo e espaço para que se desenvolva uma escuta genuína, capaz de gerar interpretação, diagnóstico e, quando apropriado, até aconselhamento — sempre no contexto da transferência. Lidar com a subjetividade humana não é brincadeira de “iô-iô com IA, IA”.