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Precisamos de Orelha para escutar e amar

Como cachorreiro, devoto de São Francisco, defensor da vida e psicanalista, não posso deixar de registrar considerações e desabafos — um olhar transversal, com educação e justiça — diante da brutalidade que o cãozinho Orelha sofreu até a morte.

Embora eu estivesse na primeira parte das minhas férias, no paraíso que é Pinheira (SC), não consegui deixar de me indignar e chorar diante de tanto vandalismo. Isso exige reflexões profundas e mudanças legais — inclusive no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

O máximo que podemos relatar, dentro dos princípios do ECA, nesse caso revoltante, são medidas socioeducativas. A internação seria a mais adequada, porém somente se aplica quando há vida humana em jogo, não prevendo agressões hediondas contra animais.

Ainda assim, a polícia local solicitou à Justiça uma internação provisória, medida que não encontra base jurídica de apoio. Foi um pedido feito sob pressão popular.

Quanto aos pais, conforme o artigo 932 do Código Civil brasileiro, devem responder objetivamente pelos filhos menores, com indenizações por danos materiais e morais; e, no âmbito criminal, por coação e ameaça a testemunhas, participação indireta em falso testemunho, ocultação de provas e, se for comprovado, por ajudar a acobertar a crueldade dos filhos contra o indefeso Orelha.

Pela psicologia do desenvolvimento de Lawrence Kohlberg, jovens no início da adolescência já deveriam ter introjetado valores morais que não se reproduzem apenas para dar satisfação aos pais, mas se expressam em empatia, lealdade e reconhecimento social.

Freud nos lembrava que, na infância, todos somos “perversos polimorfos”, mas, com a elaboração edípica e a interdição do incesto, o supereu nos coloca em condições de civilidade. O mestre da psicanálise amava os cães, lembrando que eles não têm a crueldade dos humanos.

Do ponto de vista da identificação parental, é impossível desconsiderar o papel dos pais — inclusive quando oferecem como prêmio uma viagem à Disney, além de ameaçarem testemunhas.

Como bem lembrou o deputado Leonel Radde, em um estado que chancelou defensor de torturadores e estimulou crianças com “arminhas”, tudo isso produz subjetividade e ensaios assassinos que, fatalmente, podem chegar ao humano. Tampouco, em qualquer pesquisa, poderíamos desconsiderar que matar um bichinho tão querido e comunitário é destruir também aquilo que ele representava para quem o cuidava, amava e com ele socializava.

Quando dizem que “humanizamos” os animais, respondo que é o contrário: são eles que nos humanizam, com sua fidelidade e amor incondicional. Trago, então, um outro lugar significante, com o coração abalado — como homem de fé, espírita e franciscano — numa oração:

“Orelha, escute São Francisco”

Oh, amado cachorrinho!
Saibas que teu martírio não será em vão.
Que a lei venha com a devida adequação
para barrar a maldade contra outros bichinhos queridos.

Que a comunidade de “cachoranjos” te acolha.
Agora, sigas volitando, em alma embrionária, com asas,
sem risco, sem carma, amparado pelo amor de Francisco.

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Gaio Fontella
Gaio Fontellahttps://realnews.com.br/category/opiniao/blog-do-gaio/
Gaio Fontella – Psicólogo e psicanalista, graduado e pós-graduado pela UFRGS. É comentarista e produtor do canal Café com Análise, no YouTube, e atua como coordenador da ONG Desafios, em Porto Alegre.
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