A investigação sobre compras emergenciais realizadas pela Prefeitura de Cachoeirinha durante a gestão do ex-prefeito Cristian Wasem e do então vice-prefeito João Paulo ganhou densidade documental e passou a expor um cenário que vai muito além de simples desorganização administrativa.
Documentos analisados pela reportagem indicam que a Polícia Civil requisitou formalmente cópias de processos de contratação e informações complementares para instruir apuração sobre aquisições feitas sob o argumento da urgência da calamidade. Paralelamente, relatórios técnicos e manifestações internas do próprio município descrevem ausência de justificativas, falta de orçamentos prévios, fragilidade no controle dos pagamentos e indícios concretos de preços acima do mercado.
O caso mais contundente envolve a empresa RGK Produtos e Serviços Ltda., em uma nota fiscal de R$ 206.744,00, relativa à compra de equipamentos de proteção individual e materiais correlatos. O relatório afirma expressamente que não foram apresentadas justificativas para a necessidade específica dos itens, nem documentos demonstrando a quem ou para que eles foram destinados, além de registrar que não foram juntados orçamentos para comprovar que os preços pagos estavam de acordo com o mercado.
O que era para ser compra emergencial virou alvo de questionamento
Em momentos de calamidade, a administração pública pode contratar com rapidez. O que não pode é usar a urgência como salvo-conduto para afrouxar todos os controles.
É exatamente nesse ponto que os documentos mais pesam contra a forma como as compras foram conduzidas em Cachoeirinha.
O relatório do grupo de trabalho formado pelo município analisou item por item da nota fiscal paga à RGK e concluiu que parte relevante dos valores cobrados estava acima dos parâmetros encontrados em compras públicas e em preços de mercado. Ao fim, os técnicos propuseram ressarcimento de R$ 68.293,00 ao erário, apenas nesse conjunto de materiais.
Não se trata, portanto, de uma suspeita genérica. Há um cálculo técnico, detalhado e formal, apontando quanto deveria ser devolvido aos cofres públicos caso prevaleçam os valores considerados compatíveis com o mercado.
Capacete a R$ 799, cone a R$ 169 e calça pantaneiro no mesmo patamar
Segundo o relatório, o capacete de resgate profissional foi pago a R$ 799,00, enquanto o valor ideal apontado ficou em até R$ 175,00. A calça pantaneiro, também adquirida por R$ 799,00, teve valor de referência fixado em até R$ 265,00. Já os cones grandes foram comprados por R$ 169,00 a unidade, embora o preço tido como adequado tenha sido de até R$ 65,00.
A lista segue. A corda foi paga a R$ 7,00 por metro, com valor ideal calculado em até R$ 1,50. A luva de borracha saiu por R$ 19,90, quando a referência usada no relatório ficou em até R$ 5,50. A capa de chuva foi adquirida por R$ 69,00, embora o grupo técnico tenha fixado como razoável o teto de R$ 35,00.
Também houve item com preço considerado compatível, como a bota de borracha, a lanterna full foco dinâmico, a lanterna de cabeça e o colete salva-vidas. Mas isso não neutraliza a conclusão central do documento: vários outros itens ficaram “nitidamente superiores aos preços de mercado”, mesmo em época de calamidade.
O ponto mais grave talvez não seja só o preço
O sobrepreço chama atenção, mas o problema pode ser ainda mais profundo.
O relatório registra que o processo não foi instruído com documentos que comprovassem a necessidade da compra, tampouco com elementos que demonstrassem o uso ou a destinação dos equipamentos adquiridos. Em outras palavras: além da suspeita de pagamento acima do mercado, faltaria, segundo a própria análise técnica, a base documental mínima para justificar por que aqueles itens foram comprados, em tal quantidade e para qual finalidade concreta.
Em qualquer administração pública séria, esse é um ponto crítico. Emergência acelera rito, mas não elimina o dever de motivação, rastreabilidade e comprovação da despesa. Quando isso desaparece, abre-se espaço para aquilo que mais corrói a confiança do contribuinte: gasto sem transparência suficiente.
Ressarcimento foi sugerido antes mesmo do desfecho total dos processos
O próprio grupo de trabalho sugeriu que os valores apontados como acima do mercado fossem compensados por meio de desconto em notas fiscais ainda pendentes ou por outra forma de acerto que evitasse dano ao erário. O documento também recomendou que os processos da mesma empresa fossem submetidos à Unidade Central de Controle Interno antes de qualquer finalização.
Isso reforça um dado importante: não se está diante de uma crítica política abstrata, mas de uma revisão técnica interna que já enxergava a necessidade de conter prejuízo aos cofres públicos.
A engrenagem da urgência sem freio
Os documentos analisados revelam um padrão preocupante: compras justificadas pela calamidade, pagamentos já efetivados, fragilidade documental e necessidade posterior de revisar preços que, em tese, deveriam ter sido previamente controlados.
A pergunta que fica é direta: como uma compra pública de mais de R$ 206 mil foi paga sem que estivessem devidamente demonstradas a necessidade específica dos itens, sua destinação e a compatibilidade dos valores com o mercado?
Essa é a conta que não fecha.
Porque o problema não está apenas no fato de a cidade viver uma emergência. O problema está na possibilidade de a emergência ter sido usada como ambiente ideal para compras mal explicadas, mal documentadas e, ao que indicam os relatórios, com parte dos preços fora da curva aceitável.
Polícia Civil avança sobre contratos e documentos
Com a abertura da apuração policial e a requisição formal de processos administrativos, a discussão deixa de ser apenas política e passa a ganhar contornos mais severos.
O foco agora é entender quem autorizou, quem validou, quem recebeu os alertas e quem permitiu que os pagamentos avançassem mesmo diante de inconsistências que mais tarde seriam apontadas por relatórios técnicos internos.
É nesse contexto que os nomes do ex-prefeito Cristian Wasem e do então vice João Paulo entram no centro do debate público: não por condenação antecipada, mas porque as compras investigadas ocorreram sob a condução político-administrativa da gestão da qual ambos faziam parte.
O dinheiro público da calamidade exige a régua mais alta, não a mais baixa
Quando uma prefeitura compra em meio ao caos, a população até admite pressa. O que ela não admite é descontrole. Muito menos quando o dinheiro sai do caixa público justamente num momento em que a cidade está mais vulnerável.
Se os documentos internos já apontavam ausência de justificativas, falhas de instrução processual e indícios de preços acima do mercado, então o caso deixa de ser apenas um episódio administrativo mal conduzido. Passa a ser um retrato possível de como a urgência pode ter servido de cobertura para compras sem a consistência exigida pelo interesse público.
No fim, a questão é simples e brutal: em meio à calamidade, a população precisava de resposta rápida. O que pode ter recebido, segundo os documentos sob análise, foi uma máquina de compras sem controle suficiente e com valores que agora nem os próprios relatórios internos conseguem sustentar.
E quando nem a conta oficial fecha, o dever do jornalismo é insistir até que alguém explique, com documentos e não com discurso, para onde foi o dinheiro e por que ele saiu desse jeito.



