Queridos, uma prefeitura que não consegue preservar o básico — a lisura, o decoro e a legalidade — acaba tropeçando no mais elementar: a confiança. E confiança, como se sabe, não se varre para debaixo do tapete. Muito menos para dentro de um aparelho de ar-condicionado.
Dois registros de ocorrência apontam a mesma cena de degradação institucional: câmera e microfone ocultos foram encontrados em dependências centrais do Executivo municipal, após a mudança de comando — um caso relatado no Gabinete do Prefeito, com os dispositivos escondidos no equipamento de climatização; outro, em ambiente antes ocupado pela estrutura da Secretaria de Governo, igualmente com relato de achado de câmera e microfone.
Note-se: não se está apontando autoria aqui. O que se aponta é pior, porque é sistêmico: o fato de alguém ter considerado “normal” transformar repartição pública em sala de vigilância clandestina. Isso é a falência moral da instituição. É a ideia — grotesca — de que o Estado pode bisbilhotar, registrar, armazenar e, quem sabe, chantagear. É a política rebaixada ao porão.
E aí cabe a pergunta que não quer calar: a serviço de quê? De governança? De transparência? Ora. Se fosse transparência, não seria escondido. Seria publicado. Seria auditável. Seria legal.
O que os próprios documentos destacam é justamente o núcleo do escândalo: possível violação de privacidade e do sigilo funcional e institucional, com pedido de apuração de origem, finalidade e eventual uso indevido . Em português claro: não é “fofoca de bastidor”. É assunto de polícia, de controle, de Estado de Direito.
Cachoeirinha não precisa apenas descobrir “quem fez”. Precisa afirmar, com todas as letras, que não se governa com medo, nem se administra com espionagem. Quem trata o poder público como território de arapongagem não está governando: está sequestrando a institucionalidade.
Foto: Reprodução



