Pianista transforma memórias das enchentes em espetáculo gratuito em Canoas

Desde a infância, o piano acompanha a trajetória de Karin Salz Lenzi. O instrumento, presente em diferentes gerações de sua família, começou como uma tradição doméstica e acabou se tornando uma escolha profissional. Agora, a música assume também outro papel: servir como ponto de partida para lembrar as enchentes, homenagear quem ajudou durante a tragédia e refletir sobre a relação do Rio Grande do Sul com a água.

A ligação com o piano surgiu naturalmente. Pelo lado materno, a música já fazia parte da história familiar. A mãe, a avó e o bisavô, que vivia na Alemanha, tocavam o instrumento. Um tio-avô chegou a seguir carreira profissional como organista de igreja no país europeu. Mais tarde, Karin descobriu que também havia pelo menos um pianista entre os familiares do lado paterno.

“Eu toco piano desde criança. Sempre foi algo muito natural para mim, uma tradição de família”, conta.

Ainda na adolescência, a relação com o instrumento ganhou uma nova dimensão. O que até então estava ligado à convivência familiar passou a ser visto como possibilidade profissional, levando Karin a escolher a música e as artes como caminho.

As primeiras experiências diante do público aconteceram durante a infância. Ela não consegue precisar qual foi sua primeira apresentação, mas algumas lembranças permaneceram. Uma delas envolve o Theatro São Pedro, em Porto Alegre, onde se apresentou após ensaiar a música durante o trajeto até o local, com os dedos sobre o instrumento dentro do carro.

A apreensão antes de subir ao palco fazia parte da experiência, mas não impedia a sensação de prazer.

“Eu me sentia bem, com uma ansiedade positiva”, recorda.

Quando a música encontra a memória das enchentes

O espetáculo gratuito que será apresentado em Canoas parte de uma experiência muito mais ampla do que uma apresentação musical. A proposta é revisitar as enchentes e seus impactos, mas também discutir os diferentes significados que a água possui na vida das pessoas.

A intenção, segundo Karin, é lembrar o que aconteceu sem limitar a representação da água à tragédia. O elemento também está associado a momentos de lazer, higiene, cuidado e cura.

“A ideia é relembrar e ressignificar um pouco a tragédia das enchentes, mas também a nossa relação com a água”, explica.

A apresentação também será dedicada às pessoas que participaram dos trabalhos de resgate, auxílio e reconstrução durante as enchentes. Entre os homenageados estarão voluntários que chegaram de diferentes regiões do Brasil e de outros países para ajudar as comunidades atingidas.

As pessoas que perderam a vida durante as enchentes também serão lembradas.

A arte como caminho para elaborar a dor

Ao combinar música e imagens, o espetáculo pretende provocar uma experiência diferente em cada espectador. Para quem viveu diretamente as enchentes, determinadas cenas ou sons podem despertar lembranças particulares.

Karin reconhece que revisitar acontecimentos traumáticos não é uma tarefa simples. Ainda assim, acredita que a arte pode criar um espaço para lidar com essas memórias e transformar a lembrança em reflexão.

“A música tem o poder de nos conectar profundamente a nossas emoções. A reação de cada um será íntima e pessoal às imagens e às músicas, mas a intenção é que se possa sair da apresentação diferente”, afirma.

A proposta não é minimizar o sofrimento provocado pelas enchentes, mas justamente preservar a memória para compreender suas consequências e pensar em formas de evitar que episódios semelhantes voltem a ocorrer.

Nesse processo, a solidariedade que marcou o período das enchentes ocupa posição central.

“Não é fácil relembrar uma tragédia, porém é importante pensarmos em como evitar que ela aconteça novamente. E principalmente, a união e a solidariedade que surgiu dela merece ser louvada e homenageada.”

Memórias que atravessam diferentes enchentes

A narrativa do espetáculo não ficará restrita aos acontecimentos mais recentes. Registros de enchentes ocorridas em outros períodos também serão incorporados à apresentação, entre eles imagens relacionadas à enchente de 1941.

A utilização desse material estabelece uma conexão entre diferentes momentos da história do Rio Grande do Sul e mostra que os grandes episódios de inundação fazem parte de uma trajetória que atravessa décadas.

Ao colocar imagens do passado ao lado das experiências mais recentes, a apresentação pretende estimular uma reflexão sobre os eventos extremos, a preparação das cidades e os desafios que permanecem para o futuro.

“É preciso continuarmos juntos”

Para quem passou diretamente pelas enchentes, qualquer mensagem pode parecer insuficiente diante da dimensão das perdas e das experiências vividas. Por isso, Karin prefere deixar que a música e as imagens conduzam parte da mensagem.

“É difícil eu dizer alguma coisa sobre uma situação tão complexa e difícil. A minha mensagem se dará através do espetáculo e da música. Porém, é importante percebermos que a união faz a força.”

Ao falar sobre a importância da solidariedade, a artista também recorre a uma frase atribuída ao escritor gaúcho Mário Quintana em referência às enchentes: “É preciso continuarmos juntos”.

A expressão resume uma das ideias centrais da apresentação: diante de situações de grande impacto, a união entre as pessoas pode ser uma das principais forças para enfrentar as consequências e reconstruir o que foi perdido.

A esperança de um futuro mais seguro

As enchentes deixaram outra questão que continua presente para muitos moradores do Rio Grande do Sul: como voltar a confiar no futuro diante da possibilidade de novos temporais e da elevação dos rios?

Karin admite que também gostaria de acreditar em um cenário no qual a população consiga atravessar períodos de chuva intensa sem novamente experimentar a angústia provocada pelas inundações.

“Eu preciso acreditar que sim.”

Para ela, a prevenção exige mudanças em diferentes frentes. Questões relacionadas às mudanças climáticas, ao meio ambiente e à estrutura urbana precisam ser consideradas na construção de estratégias para reduzir os riscos de novos episódios de inundação.

A ideia, portanto, não é apenas esperar que eventos extremos deixem de ocorrer, mas preparar cidades e comunidades para enfrentá-los de maneira mais segura.

Prevenção passa por mudanças nas cidades

Ao imaginar o que poderia ser feito para reduzir os impactos de uma nova enchente, Karin aponta para a necessidade de intervenções estruturais nos municípios e de uma mudança na relação da população com o meio ambiente.

“Eu faria mudanças estruturais nas cidades para que a água não acumule e cause inundação. Também melhoraria a relação que temos com o meio ambiente e com o lixo.”

É justamente nesse cruzamento entre memória, música e reflexão que o espetáculo encontra sua identidade. O piano, instrumento que acompanha Karin desde a infância e está presente na história de diferentes gerações de sua família, passa a ser também uma forma de abordar uma experiência que marcou profundamente o Rio Grande do Sul.

Entre imagens de diferentes épocas, lembranças dolorosas e homenagens às pessoas que ajudaram durante a crise, a apresentação propõe um momento de memória e reflexão.

A intenção é olhar para além da tragédia e reconhecer aquilo que permaneceu depois dela: a dor provocada pelas perdas, a solidariedade demonstrada por milhares de pessoas e a necessidade de construir cidades e comunidades mais preparadas para os desafios climáticos do futuro.

Serviço

Espetáculo: O poder das águas: Memórias do amanhã

Quando: 8 de agosto de 2026

Horário: 19h.

Onde: SESC Canoas – Av. Guilherme Schell, 5340 – Centro, Canoas.

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Leilane Beck
Leilane Beckhttp://realnews.com.br
Entre a ficção e a realidade, meu compromisso é traduzir o tempo em palavras com sensibilidade, crítica e verdade.

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