Há uma beleza quase ofensiva na simplicidade de certas ideias, dessas que deveriam ser óbvias e que, justamente por serem óbvias, levam décadas para que algum gestor público tenha a decência de colocá-las no papel. A prefeita Jussara acaba de fazer isso ao enviar à Câmara de Cachoeirinha o Projeto de Lei que cria o Programa “Visão Nota 10”, e o espanto que a notícia provoca não deveria existir, mas existe, porque estamos de tal forma acostumados à autofagia da gestão pública que um projeto que efetivamente resolve um problema concreto soa, hoje, como acontecimento raro. Pois vejamos do que se trata: exames de acuidade visual para todos os alunos do Ensino Fundamental da rede municipal, encaminhamento pelo SUS aos que apresentarem alterações e, para os que precisarem, óculos gratuitos. Simples assim. E, no entanto, capaz de mudar a trajetória escolar de milhares de crianças que hoje confundem miopia com preguiça, confundem astigmatismo com desatenção e são tratadas, seguidamente, como alunos “difíceis” quando na verdade são apenas alunos que não enxergam a lousa.
Convenhamos: quantas gerações de cachoeirinhenses cresceram sendo chamadas de dispersas, de indisciplinadas, de fracas em matemática, quando o problema estava a alguns centímetros do nariz, literalmente? A criança que não vê o quadro não copia a matéria. A que não copia a matéria não acompanha a turma. A que não acompanha a turma perde a autoestima. E a que perde a autoestima, sabemos todos, começa a faltar, depois a evadir, depois a engordar as estatísticas que tanto lamentamos em relatórios que ninguém lê até o fim. O “Visão Nota 10” ataca esse problema na raiz, e fico imaginando já a reação de algum vereador “Ozéias Cochilo” da vida, desses que dormem nas sessões e acordam apenas para discursar contra qualquer despesa que não tenha seu nome grudado, dizendo que “óculos não é prioridade” e que “o dinheiro devia ir para outra coisa”. Pois bem, caro “Ozéias”, a outra coisa que o senhor sonha, essa educação de excelência que o senhor invoca em ano eleitoral e esquece nos outros três, começa exatamente por garantir que a criança enxergue o próprio caderno.
Dito isso, e dito com a convicção de quem reconhece o acerto quando o acerto aparece, não custa notar que projeto de lei encaminhado à Câmara é promessa em tramitação, não política pública em execução, e a distância entre uma coisa e outra costuma ser proporcional ao tamanho da vontade política de quem preside a sessão seguinte. A prefeita fala em atuação integrada entre as Secretarias de Educação, Saúde e Assistência Social, o que é auspicioso no papel e historicamente labiríntico na prática, porque não há munícipe em Cachoeirinha que desconheça a fila do SUS para uma consulta com oftalmologista, e o projeto, tal como noticiado, não esclarece se haverá cronograma vinculante, se haverá dotação orçamentária carimbada no plurianual ou se, como tantas boas intenções municipais, ficará à mercê da sobra de caixa de dezembro. Seria salutar, e aqui falo como quem torce pelo sucesso e não como quem torce contra, que a Prefeitura divulgasse desde já metas trimestrais de atendimento, número de armações contratadas por convênio ou licitação, e um canal público de acompanhamento onde qualquer pai possa conferir se o filho já foi triado e em que fila está. Falta também, ao que se sabe até aqui, capacitação dos professores para a triagem inicial, porque são eles que passam seis horas por dia observando a criança semicerrar os olhos para ler o quadro, e são eles, portanto, os primeiros sensores do sistema, ainda que ninguém costume lembrar disso na hora de valorizar a categoria.
Há quem diga, e dirá, que distribuir óculos é paliativo, que o verdadeiro problema é estrutural, é a fome, é a falta de médicos, é a insegurança do bairro. Tudo isso é verdade e nada disso invalida o projeto, porque política pública não é escolha entre o ótimo inatingível e o bom possível, é a soma paciente de acertos pontuais que, um dia, formam um sistema decente. Quem sabe ver de perto aprende, com mais facilidade, a enxergar de longe. E aqui a prefeita Jussara, goste-se ou não do restante de sua gestão, mira no lugar certo.
Que se aprove o projeto, que se cumpra o cronograma, que se publiquem os números, e que Cachoeirinha, daqui a um ano, tenha menos crianças confundindo miopia com fracasso escolar. O resto é discurso, e discurso, como se sabe, não corrige grau nenhum.






