O que sustenta o ativismo político autêntico?

Pensar verbos significantes — aqueles que não possuem um único sentido — é uma postura tradicional em meu trabalho como cronista e psicanalista lacaniano, no qual articulo questões sociais, políticas e filosóficas. Quando pensamos no verbo “sustentar” em relação ao ativismo, precisamos considerar os lugares ocupados pelos saberes, pelos poderes e pelas demandas individuais e coletivas.

Aquilo que é instituído nas gestões públicas sempre atravessa as posições e as ações de quem atua como agente público. Da sociedade civil vêm as demandas, sejam elas de movimentos, coletivos ou lideranças individuais que protagonizam lutas instituintes.

Em qualquer forma de atuação, o tempo de dedicação possui custos pessoais. O voluntariado pode contribuir para sustentar determinadas iniciativas, mas não podemos esperar que seus atores vivam de vento.

Na minha época de militância estudantil, integrei a Libelu, que esteve na vanguarda da luta contra a ditadura, nas ruas, nas universidades e nos sindicatos. Tínhamos a figura do “militante orgânico”, que recebia por sua dedicação integral à causa. Tudo era claro, pois os recursos vinham das contribuições dos próprios militantes e de ações como a venda do jornal O Trabalho.

Quando o PT surgiu, os eleitos doavam 20% de seus rendimentos para ajudar a construir o partido. Isso não era uma “rachadinha” no sentido pejorativo do termo. Com o tempo, porém, em determinadas agremiações, as chamadas rachadinhas passaram a beneficiar um único bolso, por meio de contratações de serviços ou de integrantes de equipes. Para certas “lideranças”, essa prática acabou sendo instituída.

Não negamos a importância da ocupação dos parlamentos. A sustentação do ativismo também se relaciona às necessidades e à qualidade de vida de todos os cidadãos e agentes públicos, desde que haja transparência.

As verbas parlamentares são frequentemente questionadas, mas também podem contribuir para ampliar a sustentação de movimentos como aquele em que atuo: o movimento LGBTQIAPN+.

A Feira Baile da Diversidade, que chega à sua quarta edição, conta com o apoio do Orçamento Participativo (OP). A iniciativa reuniu forças da diversidade do município e do estado para garantir estrutura e subsídios à produção artística, ainda que modestos, representando um avanço neste ano.

Da iniciativa privada, recebemos o importante apoio da FESTURIS, que premiará nossa corte. Novamente, contamos também com a estética e o glamour da Mythago Produções em nossa divulgação publicitária, incluindo as ações relacionadas à Feira Baile da Diversidade e à Parada de Luta LGBT+.

Como produtor, considero-me, em essência, um ativista. Sustento minha vida com meu trabalho como psicólogo e psicanalista. A partir desse lugar, não terei problemas de consciência ao contar com futuros patrocínios, apoios ou verbas parlamentares que contribuam para dignificar e valorizar minha produção cultural e o trabalho de todas as pessoas envolvidas.

Nunca esperarei que nossas representatividades na gestão pública levantem bandeiras contra seus superiores. Espero, no entanto, que possam encaminhar as demandas da sociedade civil.

Um exemplo é a luta do SOS-RS Diversidade pelo acesso ao fundo de reconstrução, diante dos agravamentos que a comunidade LGBT+ ainda enfrenta em consequência da catástrofe político-ambiental.

Aguardamos a definição de agendas para uma nova conferência que inclua, nas pautas dos candidatos, esse compromisso. A proposta foi aprovada na Conferência Estadual da Diversidade, em 2025, e acolhida em uma carta apresentada no Fórum de Encontro de Paradas, realizado em São Paulo neste ano.

E o que seria, afinal, o ativismo autêntico?

Acredito que seja aquele que se posiciona de maneira firme e coerente em defesa de um ideal maior. Marcelly Malta partiu deixando esse legado. Seja em uma posição instituinte ou instituída, ela foi capaz — e disso fui testemunha — de colocar o movimento acima dos partidarismos.

Sobre a sustentação do ativismo, o advogado Dr. Diego Candido, da ONG Igualdade, fundada por Marcelly, declara:

“Sempre trabalhamos com o apoio de projetos, quando éramos contemplados pelo Fundo Positivo, pelo Fundo Brasil e pelo Ministério da Saúde. Somente neste ano, recebemos emendas dos parlamentares do PT, o deputado estadual Leonel Raad e a vereadora Natasha.”

A vereadora também teve a louvável iniciativa de homenagear a memória da militante com uma estátua no Parque da Redenção.

Marcelly foi uma ativista histórica e genuína na prevenção ao HIV, na defesa do direito de travestis e transexuais à retificação do nome e no acesso às cirurgias de transição. Também atuou contra a violência e em defesa dos direitos humanos no sistema prisional.

Durante a entrega do Troféu Sylvinha Brasil e ao longo da Parada de Luta, Marcelly foi reverenciada com carinho e emoção, pois o luto coletivo deve se transformar em luta.

Nossa líder, nossa traviarca, esteve, nos últimos anos, ouvindo-me e apoiando a mobilização do SOS-RS Diversidade. Sua jornada não termina, pois ela deixa marcas indeléveis em nossos corações e na história do movimento da diversidade.

 

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Gaio Fontella
Gaio Fontellahttps://realnews.com.br/category/opiniao/blog-do-gaio/
Gaio Fontella – Psicólogo e psicanalista, graduado e pós-graduado pela UFRGS. É comentarista e produtor do canal Café com Análise, no YouTube, e atua como coordenador da ONG Desafios, em Porto Alegre.

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