O medo da cegueira

Por conta da minha cirurgia de catarata, retomei reflexões psicanalíticas sobre o medo da perda da visão. Vamos pensar a cegueira em vários sentidos, no campo social e nas relações humanas?

Em uma reflexão pessoal, com base freudiana, confirmo que um grande medo humano é o de ficarmos cegos, ainda que outros sentidos, como a audição, também sejam fundamentais para nossa constituição como sujeitos. Em um mundo com tantos apelos visuais, isso não é pouca coisa.

O complexo de castração, na psicanálise, não é uma mutilação real, mas um operador psíquico fundamental que organiza a identidade de gênero, a subjetividade e a forma como nos relacionamos com as leis sociais.

No mito de Édipo, ele, ao furar os próprios olhos, pune-se, ainda que inconscientemente, por ter infringido a lei de interdição do incesto, ao apaixonar-se por sua mãe, Jocasta.

Freud, no ensaio de 1919, Das Unheimliche (O Estranho), aponta nossos estranhamentos diante daquilo que nos é familiar. No mesmo texto, acrescenta que o medo da cegueira é um sucedâneo do medo da castração.

Do ponto de vista lacaniano, desde o primeiro olhar, no qual a mãe transmite seu desejo, seu afeto — ou a falta dele — à criança, a pulsão escópica ocupa um lugar muito importante na constituição do sujeito psíquico. Claro que aqueles que nascem cegos não estão fadados a um comprometimento patológico, pois o toque e a voz também marcam esse corpo, de forma compensatória, por meio da linguagem.

O medo exagerado de ficar cego pode chegar a ser patológico, como na ablepsifobia. Na clássica neurose fóbica infantil, temos o caso freudiano de “O Pequeno Hans”, cujo medo de cavalos era, inconscientemente, um deslocamento do temor ao pai castrador.

Ampliando os sentidos, a falta de “visão” também pode estar relacionada ao medo de perder benefícios. A “cegueira deliberada”, no Direito Penal, é associada à lavagem de dinheiro, expediente do qual corruptos e sonegadores se valem.

Vale lembrar que Freud dizia que, em análise, não devemos ter vergonha de falar de sexo e de dinheiro. Os perversos, entre si — corruptos e corruptores —, não têm vergonha alguma. Haja vista que Vorcaro facilitava a seus “associados” vantagens econômicas e orgias.

No meu caso, com a cirurgia de catarata, não tive medo algum, pois a palavra de quem já havia passado por isso, somada ao acolhimento do jovem Dr. Rafael Signori e da equipe da Santa Casa, deu-me plena segurança.

E viva o nosso SUS, a maior política pública de saúde do mundo, temida pelos hospitalocêntricos e por neoliberais interesseiros que almejam privatizar a saúde, retrocedendo ao antigo INAMPS, sem os princípios constitucionais, éticos e filosóficos que o nosso sistema atual adotou: universalidade, equidade e integralidade.

Minha visão está de guri, rejuvenescida e ampliada, para enxergar, em todos os sentidos, neste ano eleitoral, quem é pró-vida e quem é capaz de sacrificar o ego em nome da união contra os retrocessos. Aproveito para cumprimentar Edgar Pretto, que coloca o melhor para este momento ao, diante do que foi decidido, apoiar Juliana Brizola na cabeça de chapa para o governo do Rio Grande do Sul.

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Gaio Fontella
Gaio Fontellahttps://realnews.com.br/category/opiniao/blog-do-gaio/
Gaio Fontella – Psicólogo e psicanalista, graduado e pós-graduado pela UFRGS. É comentarista e produtor do canal Café com Análise, no YouTube, e atua como coordenador da ONG Desafios, em Porto Alegre.

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