Há um certo prazer, raro nos tempos que correm, em assistir a uma prefeitura assinar um contrato e, surpreendentemente, não encontrar nele nenhuma armadilha, nenhuma letra miúda capaz de azedar o entusiasmo do leitor mais desconfiado. Foi o que aconteceu em Gravataí na assinatura da concessão do Mercado Público Municipal à Mercados Urbanos S.A., negócio de R$ 20 milhões que devolve vida e função ao antigo Ginásio do Aldeião. Vinte milhões de reais. Convém repetir o número, porque é dele que vem a primeira lição: investimento de gente grande, decisão de cidade que já entendeu que não dá mais para viver de promessa.
O espanto, devo confessar, não é pelo valor em si, mas pela arquitetura do acordo. A Prefeitura não entrega o espaço e lava as mãos, como costuma acontecer nesses casos que terminam em ruína anunciada. Ela transfere a gestão integral aluguel de boxes, eventos, publicidade, limpeza, segurança, conservação a quem entende do ofício, e ainda assim garante para os cofres públicos uma outorga de 4% sobre a receita bruta mensal, crescente ao longo dos primeiros cinco anos até atingir o valor integral no sexto. Ou seja: o município não corre o risco do investimento, mas colhe o fruto da operação. É, com a devida licença para o anacronismo, capitalismo bem comportado a serviço do interesse coletivo.
A pergunta que ninguém faz, mas devia
Por que tantas cidades insistem em administrar diretamente equipamentos que exigem vocação comercial, agilidade e capital de giro coisas que repartição pública, sabidamente, não tem em estoque? A resposta de Gravataí foi simples e, ainda assim, raramente vista: reconhecer o próprio limite e contratar quem sabe fazer. Não há nisso nenhuma renúncia de soberania, como bradariam os de costume. Há, isto sim, o reconhecimento de que soberania também se exerce escolhendo bem os parceiros.
E a escolha do local merece elogio à parte. A esquina da Rua Adolfo Inácio de Barcelos com a Avenida Centenário, ocupando as instalações do antigo Ginásio do Aldeião, não foi escolhida por sorteio ou por afeto sentimental: veio de um levantamento técnico das estruturas disponíveis, e ganhou porque tem o que um mercado público precisa para respirar posição central e estacionamento de sobra. Quem já tentou estacionar perto de algum mercado tradicional Brasil afora sabe o quanto esse detalhe, banal à primeira vista, decide o sucesso ou o fracasso de um empreendimento desse porte.
Há também, nesse projeto, um detalhe que escapa ao olhar apressado e que merece ser sublinhado com letras garrafais: a proposta contempla a preservação das tradições açorianas que ajudaram a formar a identidade de Gravataí. Gastronomia, artesanato, manifestações culturais, tudo isso ganha, finalmente, um endereço fixo. Em tempos em que tantas cidades gaúchas se contentam em lembrar suas origens apenas em datas comemorativas e discursos de ocasião, transformar essa herança em atração permanente é operação de inteligência cultural rara. Quem disse que memória e negócio não combinam nunca entendeu de turismo.
O prefeito Luiz Zaffalon resumiu o espírito da iniciativa ao falar de uma cidade que cresce, atrai investimentos e moradores, e que precisa, paralelamente, de novos espaços de lazer, renda e convivência. Frase de político, dirão os mais cínicos. Mas frase de político que, neste caso específico, vem acompanhada de contrato assinado, cronograma definido e responsabilidades claramente atribuídas, o que já a separa, e bastante, do lugar-comum.
A partir de agora, a Prefeitura tem 90 dias para emitir a ordem de início das obras. Depois, até 30 dias de transição operacional, com transferência de contas de consumo, contratação de equipes e implantação da segurança privada. Só então virá a abertura gradual dos espaços comerciais. É cronograma de quem tem pressa de acertar, não de quem quer ganhar tempo com anúncios vazios.
Resta, é claro, acompanhar. Toda promessa de revitalização carrega consigo o risco de se transformar em mais uma obra inacabada, mais um terreno cercado, mais uma desculpa para a próxima gestão. Mas o desenho deste contrato, equilibrado, com prazos, com responsabilidades bem distribuídas entre poder público e concessionária, dá a Gravataí o direito de comemorar antes mesmo do primeiro tijolo. E dá à cidade algo ainda mais valioso do que um mercado reformado: a prova de que é possível planejar com seriedade e entregar com método. Que sirva de espelho.






