O empate em 0x0 entre Grêmio e Remo deixou um sentimento claro: não foi apenas mais um tropeço, mas a repetição de um roteiro que já começa a cansar o torcedor. Dentro de casa, o Grêmio apresentou novamente um futebol pobre, lento e previsível, incapaz de transformar posse de bola em perigo real. O resultado, ainda que frustrante, acabou sendo justo — e até generoso — diante do que o adversário conseguiu produzir.
Desde os primeiros minutos, o que se viu foi um time com dificuldade extrema de acelerar o jogo. A circulação de bola é lenta, os passes pouco verticais e a movimentação ofensiva praticamente inexistente. Falta aproximação, falta dinâmica e, principalmente, falta alguém que assuma a responsabilidade de romper linhas e desequilibrar. O Grêmio gira a bola, mas não agride — e isso facilita demais a vida de qualquer adversário minimamente organizado.
E foi justamente assim que o Remo encontrou espaço para assustar. Mesmo com uma proposta reativa, criou as melhores oportunidades da partida. A chance desperdiçada por Gabriel Taliari no início do jogo e o pênalti defendido por Weverton no fim da primeira etapa escancaram um problema sério: o Grêmio, além de pouco produzir, ainda concede situações claras ao adversário. Se não fosse a atuação do goleiro, o cenário poderia ter sido ainda mais negativo.
Na segunda etapa, as mudanças promovidas por Luís Castro até deram uma falsa impressão de melhora inicial. O time ganhou um pouco mais de velocidade nas trocas de passes, mas isso durou pouco. Com o passar dos minutos, voltou a cair no mesmo marasmo, abusando de bolas alçadas na área e finalizações de baixa qualidade — um recurso que evidencia muito mais desespero do que organização.
Individualmente, o desempenho também preocupa. Jogadores da linha ofensiva seguem abaixo do esperado. A ponta direita se tornou um problema crônico: nem Tetê nem Enamorado conseguem se firmar. Um peca pela baixa efetividade, o outro pelas decisões equivocadas. Essa falta de rendimento compromete diretamente o funcionamento do sistema, que depende muito da profundidade e da capacidade de desequilíbrio pelos lados.
Outro ponto que chama atenção é a dificuldade de adaptação ao esquema. O 4-1-4-1, utilizado por Luís Castro, não é necessariamente defensivo — pelo contrário, pode ser bastante agressivo. Mas, no atual contexto, parece um modelo que não conversa com as características do elenco. Jogadores como Nardoni ainda demonstram insegurança posicional, enquanto o meio-campo carece de criatividade e presença mais incisiva no ataque. O resultado é um time espaçado, pouco compacto e sem conexão entre os setores.
Além da parte tática, há também um componente emocional evidente. A falta de confiança é visível, e isso impacta diretamente na tomada de decisão. O time hesita, erra mais do que o normal e parece sentir o peso da pressão — algo que ficou claro nas vaias ao apito final. E quando desempenho ruim e ambiente pressionado se encontram, o cenário tende a se agravar rapidamente.
O problema é que o calendário não permite muito tempo para ajustes. A estreia em competição continental ocorre nessa quarta-feira, fora de casa, contra os uruguaios do Montevideo City Torque, assim como o clássico Gre-Nal, que ocorre no proxímo sábado, no Estádio Beira-Rio, clássico que historicamente, tem peso suficiente para mudar rumos, tanto para o bem quanto para o mal. Chegar nesse tipo de confronto sem evolução coletiva é um risco considerável.
O Grêmio, hoje, transmite a sensação de um time que ainda não entendeu a si mesmo. Falta identidade, falta consistência e, principalmente, falta evolução. E no futebol, repetir erros sem apresentar soluções costuma cobrar um preço alto. Luís Castro terá que agir rápido — seja ajustando o modelo, seja encontrando novas alternativas dentro do elenco — porque, se continuar assim, o “mais do mesmo” pode deixar de ser apenas um diagnóstico e se tornar um problema ainda maior ao longo da temporada.
Foto: Moreno Carvalho







