hoje, em conversa com um amigo, falávamos sobre imparcialidade no mundo e sobre como, muitas vezes, ela é exigida mesmo em situações que envolvem dor, perdas irreparáveis e vidas interrompidas. Foi nesse contexto que surgiu a lembrança da tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria (RS), e a decisão de produzir esta matéria não apenas para relembrar as vítimas, mas também para dar visibilidade a um coletivo que ainda é pouco conhecido por muitas pessoas.
Assumo, desde já, uma posição clara: sou favorável a que os culpados cumpram pena no presídio, como determina a lei. Também defendo que outros responsáveis, caso comprovada sua participação, sejam devidamente condenados. Justiça não pode ser seletiva, nem incompleta.
Naquela madrugada de 27 de janeiro de 2013, jovens não tiveram sequer a chance de serem salvos, de continuar seus estudos, de realizar sonhos ou de viver o futuro que lhes foi tirado. Para muitos, as últimas palavras foram pedidos de socorro. Para os sobreviventes, a tragédia não ficou no passado: ela se repete todos os dias, marcada por traumas físicos e emocionais.
As famílias das vítimas também vivem esse dia continuamente. A ausência, a dor e a busca por justiça fazem parte da rotina de quem perdeu filhos, irmãos e amigos. Por isso, nesta matéria, a imparcialidade dá lugar à memória e ao respeito.
Agora e sempre, escolho ser parcial ao lado das vítimas. Porque lembrar é um ato de justiça. Porque silenciar é permitir que a dor seja esquecida. E porque nenhuma decisão judicial pode apagar o que aconteceu, mas pode — e deve — reafirmar que vidas importam.
Parei muitas vezes para refletir sobre a minha própria vida e, com dor, chorei por Santa Maria. Chorei porque eu estou viva, porque tive tempo — tempo de sentir, de pensar, de seguir. As vítimas não tiveram esse tempo. Essa consciência pesa, atravessa e transforma a forma como a gente olha para a vida, para a cidade e para tudo o que veio depois.
Da tragédia à mobilização: entidade une sobreviventes, amigos de vítimas e apoiadores
O coletivo teve início como uma fan page criada por André Polga, então com 19 anos. A iniciativa surgiu após a perda de duas pessoas muito próximas: a amiga de infância Luana Facco Ferreira, de 19 anos, e Allana Willers, de 18 anos, colega de faculdade à época. Ambas morreram no incêndio ocorrido na madrugada de 27 de janeiro de 2013.
Naquele período, André cursava Comunicação Social – Produção Editorial na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O que começou como um espaço virtual de homenagem e informação acabou se transformando em um verdadeiro laboratório vivo de tudo o que era aprendido na universidade. Na prática, a fan page — que mais tarde se consolidou como coletivo — passou a reunir produção e curadoria de conteúdo, escrita jornalística, assessoria de imprensa, comunicação institucional, gestão de crise, narrativa digital, relacionamento com a mídia e uso estratégico das redes sociais.
Com o tempo, o coletivo deixou de ser apenas uma ferramenta de comunicação e passou a ocupar um papel social relevante. Tornou-se um espaço onde o conhecimento acadêmico se encontrou com a vivência pessoal, sempre a serviço da memória das vítimas, da conscientização da sociedade e da prevenção de novas tragédias.
O Coletivo participou da criação e mobilização pela aprovação da Lei Municipal no 6.839/2023, que institui a Semana em Memória às Vítimas da Tragédia da Boate Kiss no Calendário Oficial do Município de Santa Maria.
Equipe de Apoio
André Polga – Presidente
Sindi Chaves – Vice-Presidente
Luiza Mathias – Secretária
Milene Louzada – Diretora de Projetos
Luriane Leal – Conselho Fiscal
Mary Pereira – Conselho Fiscal
Isabelle Rodrigues – Conselho Fiscal
Cidade se Prepara para Homenagear Vítimas do Incêndio da Boate Kiss em Seu 13º Aniversário
Perguntei a André Polga sobre os preparativos das homenagens aos 13 anos do incêndio da Boate Kiss. As ações estão sendo organizadas com uma combinação de atos simbólicos e mobilizações que buscam manter viva a memória das 242 vítimas, reforçar a reflexão
sobre segurança em ambientes coletivos e pressionar por justiça. Em Santa Maria, como ocorre tradicionalmente, estão previstas vigílias, homenagens e o evento Janeiro 27, que incluem momentos de leitura de nomes, intervenções públicas e encontros entre familiares, sobreviventes, amigos e apoiadores.
A mobilização acontecerá nos dias 26 e 27 de janeiro de 2026 e é promovida pelo Coletivo Kiss: que não se repita, em parceria com a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM).
Desdobramentos dos júris
Estamos acompanhando atentamente os desdobramentos dos júris. Nos bastidores, o sentimento é de muita luta e emoção, especialmente diante das últimas decisões que resultaram na redução das penas, reabrindo feridas e gerando profunda frustração entre os envolvidos. Ainda assim, seguimos mobilizados, firmes na defesa da memória e da justiça.
Sobre as medidas jurídicas
O Coletivo não atua como parte processual, mas acompanha, apoia e mantém diálogo constante com familiares, amigos e sobreviventes, sempre respeitando os limites legais.
Sobre atendimento médico e psicológico
O Coletivo não dispõe de médicos durante os eventos ou júris. No entanto, ao longo dos anos, foi construída uma rede de psicólogos voluntários que se colocam à disposição para acolher e atender os atingidos sempre que necessário, especialmente em momentos de grande carga emocional.
Reflexão de André Polga por tantos anos de dor
“Acompanhar essa dor por quase 13 anos é algo que nunca se torna mais leve. A tristeza não passa; ela se transforma: em saudade, em indignação, em cansaço, mas também em responsabilidade. O que torna tudo ainda mais difícil é perceber que Santa Maria, em grande parte, não soube aprender a lidar com essa dor. Há uma tentativa constante de silenciar e rechaçar o que aconteceu, de empurrar a tragédia para o esquecimento, como se lembrar fosse um incômodo coletivo. Essa incapacidade de elaborar a própria história acaba respingando diretamente sobre os envolvidos.
Muitas vezes, a ferida é tratada como se fosse exclusivamente nossa, como se o luto, a dor e a luta por justiça não dissessem respeito à cidade inteira. Frases como ‘vocês não deixam os mortos descansarem’, ‘querem fama e dinheiro’ ou ‘buscam vingança’ são ouvidas com frequência por quem perdeu alguém ou sobreviveu. Isso machuca quase tanto quanto a perda, porque desumaniza quem já foi profundamente ferido.
Além do luto e de toda a batalha por memória, justiça e prevenção, precisamos lidar com a apatia de uma sociedade que ainda não aprendeu a olhar para a própria tragédia. Ainda assim, seguimos. Porque lembrar não é reviver a dor por escolha, é recusar o apagamento. E porque acreditamos que a memória pode educar, a dor pode mobilizar e o alerta pode, sim, salvar vidas.”



