Identificações e lugares significantes

Do campo filosófico ao psicanalítico, na clínica ou em extensão no social, temos uma pergunta permanente: quem somos? Para respondê-la, uma gama de referências integra a tentativa de alcançarmos uma compreensão mais ampla e completa da nossa percepção como sujeitos no mundo.

Quando éramos crianças, lembro-me de uma brincadeira que já iniciava essas reflexões com a questão: sou o que penso ou o que os outros pensam de mim? Isso marca o quanto os atravessamentos identitários nos levam constantemente a observar o que, em nosso comportamento e em nossas escolhas, é genuinamente nosso, oriundo de nossos desejos, e o que decorre da influência do outro.

No Seminário do Eu, o psicanalista Jacques Lacan deixa algo bem pontuado: “Se algo se pode dizer do Eu é que ele é eminentemente imaginário”. Encontramos aí, portanto, um referencial que nos ajuda, mas que não é simplista.

Considerando que, na elaboração edípica, buscamos uma individuação, uma percepção própria do nosso ser, na estrutura neurótica somos divididos. Temos empréstimos de significantes, do Outro — “um tesouro”, no olhar lacaniano —, dos quais vamos escolhendo, desse baú, as “joias” que mais nos atraem.

Um exemplo simples: de meu pai, Abelardo Fontella, veio o engajamento no ativismo político; com meu segundo pai adotivo, meu irmão José Fontella, veio o trabalho em comunicação. Com minha mãe, Leocádia, trago emocionalmente uma força perseverante, persistente e resiliente diante dos embates da vida.

O trabalho como psicólogo e psicanalista vem da identificação com minha segunda mãe, Nilza Fontella, que, embora não fosse da área, sempre foi interessada na alma humana, em suas amizades importantes, na análise pessoal e no percurso da análise em grupo com o grande David Zimmerman. Depois, na adolescência, tive muitas amigas “psis” e namoradas.

Porém, como dizia Freud, identificação não é imitação. Vamos fazer do nosso jeito. Enquanto meu pai biológico foi brizolista — e guardei essa simpatia —, na juventude fui para uma radicalidade de esquerda, fazendo parte da Libelu, tendência trotskista que esteve na vanguarda ao colocar o movimento estudantil na rua e participar da fundação do PT.

Minha mãe adotiva, Nilza, era bastante freudiana. Eu, por minha vez, tornei-me lacaniano, muito identificado com meus mestres da UFRGS, sobretudo com minha saudosa Martha Brizio, com quem estudei nos estágios, na pós-graduação em psicanálise, e com quem trabalhei no Núcleo de Pesquisas, Extensão e Intervenções nas Psicoses, na clínica da UFRGS, por cerca de dez anos.

Na comunicação, tive escola em casa: meu mano José Fontella foi um reconhecido locutor e jornalista. Seu filho, Aldo Fontella, foi aclamado como um dos melhores comunicadores das FMs. Sofri essas influências, mas trilhei meus próprios caminhos, como apresentador jovem, produtor e, hoje, cronista.

Assim, no viés lacaniano, percebo-me como um somatório de identificações que dão lugar ao meu Eu. No ativismo, tenho uma identificação com Lula, não apenas pelos avanços que traz ao país, mas também por sua habilidade diplomática e por sua postura não sectária nas negociações.

Foi assim nas reuniões que tivemos nesta semana com nossos representantes LGBTs no município e no estado, buscando união em torno de pautas inclusivas e unificadoras, tendo como carro-chefe a Feira Baile da Diversidade.

Agradeço por essa torcida a Maria Odete Bento, Dani Morethson, nossos acolhedores no município; a Gloria Crystal, no estado; e à prefeita da Praça Brigadeiro Sampaio, Marivani Anhanha Rogério. Também registro nosso agradecimento à valiosa aquisição de uma equipe experiente, organizada e resolutiva da ONG Desafios, com Rubem Quintana na direção geral e no suporte ao nosso marketing e à organização, ao lado de Gregory e Hiago.

Avante, rumo à edificação de um South Summit colorido e democrático, com relevância para o empreendedorismo LGBT+ e para o turismo gay friendly, na capital da diversidade, Porto Alegre, que recebe nossos parabéns por seus 254 anos!

spot_img
Gaio Fontella
Gaio Fontellahttps://realnews.com.br/category/opiniao/blog-do-gaio/
Gaio Fontella – Psicólogo e psicanalista, graduado e pós-graduado pela UFRGS. É comentarista e produtor do canal Café com Análise, no YouTube, e atua como coordenador da ONG Desafios, em Porto Alegre.
- Conteúdo Pago -spot_img

Publicidade