Há uma espécie de talento raro em errar sempre da mesma forma, com a mesma convicção, e ainda assim acreditar que na próxima tentativa o resultado será diferente. Luís Castro cultiva esse talento com esmero. O Grêmio caiu diante do Bolívar, e convém registrar o feito histórico com a devida solenidade: em toda a sua trajetória, o clube boliviano só havia vencido um time brasileiro uma única vez. Agora, contra o Grêmio, são duas.
Antes de aportar em Porto Alegre com aquele ar de quem vem salvar o futebol sul-americano, Castro já havia sido demitido do Al Nassr por adotar, segundo observadores do futebol árabe, exatamente o tipo de armação tática que hoje testa a paciência da Arena. Não é reincidência, é uma assinatura do treinador. Talvez isso explique uma coisa, entender muito de futebol não significa ser capaz de ganhar grandes titulos.
Vejamos o roteiro da eliminação, que merece ser contado com todo o zelo que a ocasião pede. Na entrevista coletiva anterior ao jogo decisivo, o treinador anunciou que Braithwaite atuaria como armador. Braithwaite. Armador. O dinamarquês, contratado para finalizar e não para distribuir, foi promovido à função por uma leitura de jogo supostamente superior à de Gabriel Mec, que, além de jogar na posição, tem a rara vantagem de ter nascido para ela. O time entrou em campo com três volantes, arranjo que a temporada inteira já havia se encarregado de comprovar que não funciona, mas que Castro insiste em revisitar como quem revisita um restaurante que sempre entrega comida ruim na esperança de que, desta vez, o prato venha diferente. No segundo tempo, com o resultado desmoronando, veio a correção: Gabriel Mec entrou. Chamemos isso pelo nome certo: não foi ajuste tático, foi confissão de um grande erro repeitdo de forma tardia.
O prejuízo, digamos assim, é mensurável. Fala-se em R$ 165 milhões de reais associados às premiações de avanço na Sul-Americana e na Copa do Brasil, competição na qual, é justo dizer, o Grêmio ainda segue vivo, ainda que as expectativas em torno dessa sobrevivência sejam tratadas por parte da crítica esportiva com o entusiasmo de quem aguarda um resultado de exame médico. Sim, o Grêmio ao não vencer a Sul-Americana e nem ser campeão da Copa do Brasil, rasga R$ 165 milhões. Este é o valor total das duas competições. Agora, caso por um grande milagre, consiga chegar na final da Copa do Brasil e ser campeão, poderá conquistar em torno de R$90 milhões. Com Luís Castro no comando é nome de filme: Missão Impossivel.
E chegamos ao ponto em que a torcida, cansada de assistir a fiascos sucessivos dentro de uma arena que já foi sinônimo de temor para qualquer visitante, volta a especular sobre o retorno de Renato Portaluppi. É a repetição de um ciclo, sim, ninguém nega. Mas há quem prefira o ciclo conhecido ao abismo sem mapa. A discussão, no entanto, não se esgota no nome do treinador. Cresce, nos bastidores, o questionamento sobre a própria estrutura de gestão do futebol gremista, sobre o peso de conselheiros nas decisões esportivas e sobre um modelo interno que, segundo críticos históricos do clube, atravessa gestões diferentes sem nunca mudar de fato. Um sistema que talvez possamos chamar de feudal.
Sete meses de trabalho já deveriam ter produzido alguma coisa que se pareça com identidade competitiva. Não produziram. E convém que se diga: reconhecer isso não é injustiça com Castro, é apenas honestidade com o calendário. A pergunta que fica, e que a diretoria parece disposta a adiar indefinidamente, é simples: até quando o Grêmio vai insistir em repetir o mesmo erro esperando um final diferente?





