O livre-arbítrio diz de uma capacidade de escolha que não é irrestrita, pois está atravessada pelo impacto que causa em nós mesmos, seja na saúde, na escolha profissional, seja com o respaldo civilizatório da democracia, que exercemos no dia a dia, no que falamos e no voto, neste dia 4 de outubro.
No campo da saúde pessoal e de nossos afetos, estamos, em situações variadas, diante de dilemas de escolhas. Por exemplo, vale a pena suportar, no tratamento oncológico, baterias de quimioterapia que não prolongam muito nossa expectativa de vida? Mas essa possibilidade, nos dando como chance ver um neto nascer, um filho se formar, ver nossa esperança de um Brasil melhor ter vitória, não valerá a pena?
Particularmente, tenho lembrado de Nietzsche, que, em “Gaia Ciência”, disse: “Queria muito encontrar um médico que fosse filosófico e um filósofo que não esquecesse o corpo”. Considerando que a psicologia nasce da filosofia e a psicanálise, no viés freudiano, “uma metapsicologia semiológica e curativa”, sigo nessa lógica.
Meu médico, Dr. Marcelo Pantoja, vem sendo muito psicólogo, ajudando-me a não me agoniar por não sair do pré-diabetes, com as fugidinhas: um sushi mensal, um docinho raramente. Contemplando minha paixão de gringo por carboidratos, moderada, em um ano tenho me estabilizado, sem evoluir para o diabetes. Claro que já saí desse lugar e posso escolher retomar caminhadas e maior controle alimentar.
Felizmente, para psicanalistas lacanianos, temos um olhar holista integrador do Real, do Imaginário com o Simbólico, considerando o que está perdido, o tal “Objeto a”, que diz de sermos sempre desejantes com a falta. Em extensão, esse olhar pode ser aplicado às escolhas de planos de governo.
Neste dia 4, o livre-arbítrio segue relativizado pelas influências das redes, das fake news, de edições que pegam uma fala descontextualizada para colocar o discurso contraditório. Temos nexos que fazem uma indução apenas com convicções, sem provas.
Temos que considerar o seguinte: o fato de ninguém ser culpado sem provas e julgamento não pode nos embotar de ver evidências comprovadas com o escândalo no Master, seja de candidato pedindo dinheiro, de emendas parlamentares e ministros envolvidos, que não podem ser blindados por nenhum interesse eleitoreiro.
Nosso livre-arbítrio implica nas escolhas na hora do voto. O nosso umbigo, nosso interesse de classe ou identificação com o retrocesso vão estar em jogo, ou a empatia, pensar melhor no futuro de nossos filhos, de um país soberano, sem entreguismo, com avanços sociais, sem bets, sem corrupção, emparelhamento com milícias e crime organizado.
Uma sugestão que tenho dado aos indecisos ou descrentes é bastante objetiva: façam uma planilha e comparem os candidatos. Registrem aquilo que fizeram de positivo, suas propostas, sua trajetória pública e eventuais denúncias, investigações ou condenações — sempre distinguindo umas das outras. Consultem fontes oficiais e informações documentadas. Patrimônio declarado, decisões judiciais, prestações de contas eleitorais e dados divulgados por órgãos públicos, como o COAF, também podem ajudar a formar uma avaliação mais consistente.
O voto vai ser útil aos propósitos da escolha de um país que avance, que tenha posição em defesa de nossos patrimônios, de nossa liberdade, de um Brasil plural, inclusivo, que não diminua mulheres, negros, LGBTs. Agora é hora de reafirmar, com liberdade democrática, a defesa da família múltipla, não apenas heteronormativa, ou a familicídia de margarida com “conge” em orgias, surubas patrocinadas por um “Master” corruptor.
É bom pensar qual a utilidade de um voto que embarque em sofismas como reduzir impostos, sem dizer de quem, mas que é em prol dos ricos, ou avançar na redução das desigualdades no ensino, no atendimento à saúde, cultura e educação. Toda essa reflexão vale para as escolhas de governadores, senadores, deputados federais e estaduais, que darão sustentação ao governo nacional. A máxima “Cada um tem o governo que merece” passa por esses olhares. Que país cada um vai merecer com sua escolha?





