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Entre aplausos e estatuetas, o cinema brasileiro segue apostando no mesmo cavalo

O Brasil voltou a vencer o Globo de Ouro após 27 anos, com O Agente Secreto levando o prêmio de Melhor Filme de Língua Não Inglesa. Aplaudido no palco, Kleber Mendonça Filho mandou um “alô, Brasil”, elogiou Wagner Moura e dedicou o troféu aos jovens cineastas. Tudo bonito. Tudo correto. Tudo previsível.

Na mesma noite, Wagner Moura venceu como Melhor Ator, consolidando mais um capítulo de uma carreira internacional construída, quase sempre, sobre o mesmo alicerce: filmes politizados, críticos às forças de segurança e, não raramente, centrados em narrativas que colocam militares e policiais como vilões oficiais da história.

Não se trata de negar talento — Wagner Moura é um grande ator. Mas é impossível ignorar que o cinema brasileiro premiado lá fora parece aceitar apenas um tipo de discurso. Um discurso que agrada festivais, jurados estrangeiros e uma elite cultural que gosta de ouvir exatamente aquilo que já espera ouvir sobre o Brasil.

A pergunta incômoda é: onde estão os outros lados da moeda?

Durante o regime militar, ouvimos à exaustão a versão de quem estava no poder — isso é fato. Mas também nunca demos voz suficiente àqueles que apenas obedeciam ordens para não morrer, para não desaparecer, para não colocar a própria família em risco. Esses não viraram personagens de filme premiado. Não rendem estatueta. Não viram manchete internacional.

O cinema nacional parece preso a uma aposta única — como apostadores de cavalo que insistem sempre no mesmo animal, mesmo quando a corrida já mudou. E quem ousa questionar essa lógica logo é rotulado, cancelado ou jogado para fora do debate.

Tropa de Elite é o melhor exemplo desse paradoxo. Um filme que escancarou a realidade da polícia, da milícia e do sistema, amado pelo público e rejeitado por parte da crítica “iluminada”. Nunca foi feito para premiações internacionais. Talvez porque mostrasse uma verdade que não cabia no roteiro ideológico aceitável.

Ainda assim, o mérito artístico existe e deve ser reconhecido. Wagner Moura entrega mais uma atuação forte, intensa e tecnicamente impecável. O problema não é o ator. O problema é o funil cultural que decide quais histórias merecem ser contadas, financiadas e celebradas.

O Brasil ganhou um prêmio importante. Mas perdeu — mais uma vez — a chance de mostrar que sua história é complexa demais para caber em uma única narrativa.

E enquanto continuarmos a aplaudir apenas um lado, seguiremos ganhando troféus… e perdendo debates.

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Leilane Beck
Leilane Beckhttp://pensereal.com
Jornalista independente, baseada em evidências, múltiplas fontes e contexto histórico.
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