Passei o dia trabalhando e assistindo a Emergência 53, série original do Globoplay que acompanha a rotina de profissionais de uma unidade móvel de urgência. A ideia inicial era assistir a alguns episódios entre uma tarefa e outra. Não funcionou exatamente assim. A história foi prendendo a atenção até ficar difícil simplesmente desligar a televisão.
A produção acompanha atendimentos marcados pela urgência e por situações extremas, mas não se limita às ocorrências médicas. Aos poucos, a série abre espaço para mostrar também quem está dentro das ambulâncias, tomando decisões sob pressão, convivendo com perdas, limitações, conflitos e escolhas difíceis.
É justamente essa dimensão humana que torna algumas histórias particularmente interessantes.
Entre elas está a trajetória de Pedro, personagem interpretado por Emílio Dantas. Cirurgião-geral considerado brilhante por seus colegas, Pedro convive com o transtorno bipolar e, dentro da narrativa, enfrenta também dificuldades para aceitar o próprio diagnóstico. O personagem passa por momentos de euforia e depressão, enquanto tenta conciliar sua vida pessoal, sua condição de saúde e a responsabilidade de atuar na linha de frente do atendimento de emergência.
Um personagem que vai além do diagnóstico
O que mais chama atenção nessa história não é simplesmente o fato de Pedro ser um personagem com transtorno bipolar.
É o fato de a bipolaridade não apagar as outras características que formam o personagem.
Pedro continua sendo médico, cirurgião, profissional responsável por decisões importantes e alguém com uma história própria. Ao mesmo tempo, precisa lidar com uma condição de saúde mental que interfere em diferentes aspectos de sua vida.
A própria divulgação oficial da série descreve o personagem como um cirurgião-geral considerado genial pelos colegas e diagnosticado com transtorno bipolar. A produção também apresenta sua dificuldade em aceitar a condição como parte importante de sua trajetória.
Essa abordagem me fez lembrar de outra produção médica que também colocou a bipolaridade no centro de uma história.
Em Grey’s Anatomy, o médico Andrew DeLuca, interpretado por Giacomo Gianniotti, passou por uma trama relacionada a episódios de mania durante a 16ª temporada. A história utilizou a experiência do personagem para abordar saúde mental dentro de um ambiente profissional marcado por alta responsabilidade e pressão.
São personagens diferentes, de universos diferentes e construídos a partir de histórias próprias. Ainda assim, existe uma aproximação importante entre eles: nenhum dos dois pode ser resumido ao diagnóstico.
A televisão brasileira também trouxe o tema para o centro da trama
Em 2025, a novela Dona de Mim, da TV Globo, apresentou outra personagem com transtorno bipolar.
Filipa, interpretada por Cláudia Abreu, passou por episódios que durante parte da trama eram associados à sua personalidade. Depois de uma crise, a personagem procurou atendimento especializado e recebeu o diagnóstico de transtorno bipolar. A narrativa também mostrou sua dificuldade diante da nova realidade e o início da busca por acompanhamento.
A representação de Filipa acrescentou outra perspectiva ao debate. O diagnóstico não apareceu como uma explicação simples para toda a personalidade da personagem, mas como uma informação que passa a modificar a maneira como ela e as pessoas ao seu redor compreendem determinados comportamentos.
E talvez seja justamente aí que a televisão possa prestar uma contribuição importante.
Bipolaridade não é simplesmente mudar de humor
Existe uma diferença significativa entre a ideia popular de “estar feliz hoje e triste amanhã” e o que caracteriza o transtorno bipolar.
De acordo com informações do Ministério da Saúde, o transtorno afetivo bipolar envolve episódios de alterações do humor, que podem incluir mania, hipomania e depressão. No tipo I, ocorre pelo menos um episódio maníaco, enquanto o tipo II envolve episódios de hipomania associados a episódios depressivos, sem histórico de mania.
Durante episódios de mania ou hipomania, podem aparecer alterações importantes na energia, na atividade, na necessidade de sono, na velocidade do pensamento e da fala, além de impulsividade e outras mudanças comportamentais. A intensidade desses episódios varia, e a mania pode provocar comprometimentos significativos na vida pessoal, profissional e social.
É por isso que reduzir a bipolaridade a uma simples alternância entre felicidade e tristeza pode ser não apenas impreciso, mas também prejudicial.
Existe uma condição de saúde por trás do diagnóstico. Existem sintomas. Existem diferentes manifestações. E existe, principalmente, uma pessoa que não deixa de ser quem é porque recebeu um diagnóstico.
O personagem antes do diagnóstico
Talvez uma das questões mais importantes dessas produções esteja justamente na possibilidade de mostrar o personagem antes, durante e depois da compreensão sobre sua condição.
Pedro não deixa de ser médico porque é bipolar.
DeLuca não deixa de ser médico.
Filipa não deixa de ser mãe, mulher, profissional e personagem complexa porque recebeu um diagnóstico.
A saúde mental faz parte dessas histórias, mas não precisa ser toda a história.
Essa distinção é importante porque o estigma muitas vezes nasce da tentativa de transformar uma condição de saúde em uma definição completa de uma pessoa.
É como se o diagnóstico passasse a vir antes do nome, da profissão, dos sonhos, das relações e da própria identidade.
Quando a ficção abre espaço para a informação
A televisão não substitui uma consulta médica, uma avaliação psiquiátrica ou o acompanhamento de profissionais de saúde.
Uma série também não deve ser utilizada como ferramenta para que alguém tente diagnosticar a si próprio ou outra pessoa.
Mas a ficção pode despertar perguntas.
Pode fazer alguém procurar informação.
Pode ajudar uma família a conversar sobre um assunto que antes parecia difícil.
Pode contribuir para que determinados comportamentos sejam observados com mais atenção.
E pode, principalmente, ajudar a retirar a saúde mental do lugar de tabu.
Emergência 53 utiliza a rotina de uma unidade móvel de urgência para contar histórias sobre profissionais e pacientes. Dentro desse universo, a trajetória de Pedro acrescenta uma camada que vai além das sirenes, dos atendimentos e das decisões tomadas em segundos.
Ela fala sobre o profissional que precisa cuidar dos outros enquanto também enfrenta uma questão pessoal.
E talvez seja justamente essa uma das forças de uma boa representação: mostrar que vulnerabilidade e capacidade podem existir na mesma pessoa.
Algumas batalhas não acontecem diante das sirenes
Depois de passar o dia entre trabalho e episódios de Emergência 53, foi essa reflexão que permaneceu comigo.
Entre resgates, emergências e situações em que cada segundo importa, a história de Pedro lembra que nem todas as batalhas podem ser vistas.
Algumas acontecem longe das ambulâncias.
Não têm sirenes.
Não aparecem necessariamente em um exame.
E nem sempre são percebidas por quem está do lado de fora.
Falar sobre bipolaridade com mais informação, humanidade e responsabilidade é também reconhecer essa dimensão invisível.
Porque, antes de qualquer diagnóstico, existe uma pessoa.
E nenhum diagnóstico deveria ser maior do que ela.





